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Estética da Multidão de Barbara Szaniecki

Jussara Setenta | Universidade Federal da Bahia

Szaniecki, Barbara. Estética da Multidão. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2007. 159 páginas. R$30.00, papel.

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A obra Estética da Multidão de Bárbara Szaniecki se constrói a partir do interesse inicial pelo questionamento da prática de produção de cartazes e se desdobra numa curiosidade por compreender e apreender as ações dos cartazes nos ambientes culturais, sociais e políticos. Para tanto apresenta seus argumentos em três capítulos: 1. “Espaço Social, tempo político e tom: concepção e forma de poder na representação clássica”; 2. “Transformações das soberanias: continuidades das imagens do poder, multiplicidade das imagens da potência”; 3. “Soberania imperial e cartazes políticos na contemporaneidade”. Os capítulos são precedidos de uma introdução que indica o delineamento do objeto de estudo—a saber, o cartaz político—e para tanto vai considerá-lo a partir de sua capacidade de transformação, de modificação do entorno sócio-cultural-político. Nessa oportunidade estão indicados dois autores considerados fundamentais para o processo analítico dos cartazes. São eles, Michel Foucault e Antonio Negri.

A escolha dos autores determina pontos norteadores do estudo no que se refere ao conceito de poder trabalhado em diferentes períodos históricos. Para a autora esses autores reúnem “ação e reação, poder e resistência [que] se definem em sua relação” (14). Em suas primeiras páginas fica claro a determinação por apresentar o conflito entre imagens de poder e de potência e a escolha teórica da autora pela discussão da potência em oposição à essência. Esse assunto está desdobrado ao longo da obra, sendo analisados aspectos da teoria da soberania do século XVII, os discursos de poder dos séculos subseqüentes e a crise da modernidade que expõe a disjunção transcendência/ imanência que impõem conflitos na contemporaneidade. Metodologicamente foram selecionados materiais iconográficos via publicações diversas e, também daquelas publicadas em sites de internet. Tudo isso, para garantir a ampliação das análises que organizaram de modo flexível as formas e os conteúdos, e possibilitar o trânsito dos conteúdos políticos para as formas estéticas.

No capítulo 1, a autora introduz a questão da representação política e estética sustentada pela iconografia de Luís XVI. Desenvolve a idéia de metáfora da soberania e apresenta-nos o jogo da visibilidade e da invisibilidade para expor características de representação. Para uma melhor compreensão, Szaniecki utiliza-se do exemplo de Burke, que na obra A Fabricação do Rei: a construção da imagem pública de Luís XVI, de 1994, apontou para a relação da representação e da ausência de modo conjuntural, o que refletia o distanciamento social e a perenidade política fomentando a crise da representação. Traz, ainda, a discussão acerca do conjunto de imagens homogêneas coordenadas pelo reino e a heterogeneidade de produção crítica promovida pela práxis popular baseada nos estudos de Bakhtin.

A continuidade e a multiplicidade dos discursos que legitimam e criticam as diferentes formas visuais seja da estética popular, seja da estética clássica, é foco de discussão do capítulo dois. Estão trazidos os cartazes políticos com a finalidade de examinar o surgimento do discurso histórico-político que redefinem o conceito de nação partindo da conceituação de biopolítica construída por Foucault. A produção biopolítica das imagens na modernidade se alargam para a pós-modernidade a partir da definição sociológica, política e ontológica do conceito de multidão proposto por Negri e abordado no terceiro capítulo. Essa abordagem gera uma dinâmica das manifestações globais contemporâneas em sua expressão estética, investida de um fazer-se onde fica perceptível que essas expressões “não se encerram em superfícies específicas— papel, tecido, muro, chão, corpo, carne— mas extrapolam todo o limite espacial e [...] temporal de exposição [...]” (142).

Vale ressaltar que todo o empreendimento argumentativo proposto na obra de Barbara Szaniecki merece ser conhecido na íntegra, uma vez que as proposições apresentadas pela autora se desenham num continuum de relações entre os autores e conceitos escolhidos, e que fortalecem os propósitos de discutir o processo histórico e político da produção e utilização de cartazes e todo o potencial prospectivo e crítico-analítico de redesenho das relações espaço-temporais presentes na contemporaneidade. A relação entre o texto e as imagens apresentadas é outro ponte forte da obra, e que define a relevância do estudo realizado como também futuros desdobramentos de produção de conhecimento viabilizada por interesses em atualização de debates e discussões acerca de idéias e conceituações estéticas e políticas produzidas desde a modernidade até os dias atuais.


Jussara Sobreira Setenta
é professora da Pós-Graduação e Graduação em Dança da Universidade Federal da Bahia, Brasil. Nessa mesma instituição de Ensino Público Superior, coordenadora o Grupo de Estudos de Dança e Política e está a frente do projeto de pesquisa "Performatividade em Dança e Performance: estudos para enunciações políticas do/no corpo." Autora do livro O Fazer-Dizer do Corpo: dança e performatividade publicado em 2008 pela EDUFBA.