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A identidade do Amazonas expressa no folclore do Boi-Bumbá
por Erick Bessa Pinheiro

Abstract in English

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Com a pesquisa desenvolvida através de imagens fotográficas e entrevistas relativas ao XXXIX Festival Folclórico de Parintins (FFP) e seus bastidores no ano de 2004, e refletindo sobre a participação do V Encontro de Performance e Políticas nas Américas com a temática "Performance e Raízes: práticas indígenas e mobilizações comunitárias", decidi enfocar neste trabalho a força mobilizadora empregada pelo povo parintinense em torno da mais disputada festa junina brasileira que apresenta o "Boi-Bumbá de Arena", demarcando a identidade do Amazonas na saga deste folclore através do tempo, e a contribuição para o resgate e preservação da cultura indígena dentro do FFP.

Como o V Encontro foi um espaço interativo de idéias e colaborativo de trabalhos à respeito de performance, pude perceber a ligação e a importância desta temática que envolve práticas de danças (1), coreografias, encenações dramáticas que lidam tanto com o sagrado como com o profano, música – que no caso são conhecidas como "toadas" (2) - e artes plásticas, que me levam a definir esta manifestação anual como a história criativa de um povo estabelecida ao registro do conceito de patrimônio cultural imaterial (3).

O Boi-Bumbá foi trazido pelos imigrantes nordestinos no final do século XIX e início do século XX, durante o ciclo da borracha no Amazonas. O Auto-do-Boi (4) amazônico detém características singulares que o diferem das demais expressões deste folclore em outras cidades brasileiras, por ser organizado como um espetáculo de arena que o denomina de "Boi de Arena", através de uma intensa disputa artística, cênica e musical frente aos temas escolhidos por cada agremiação para a apresentação dos grandiosos espetáculos. O escritor parintinense Tonzinho Saunier descreve em "Parintins - Memória dos Acontecimentos Históricos" que o Boi-Bumbá Caprichoso foi trazido de Manaus por Emídio Vieira, Luís Gonzaga, Emílio Silva e os irmãos Cid, e que em 1920, surgiu o Boi-Bumbá Garantido, criado pelo poeta popular Lindolfo Monteverde. Já Basílio Tenório (5) afirma que a criação ocorrera em 24 de junho de 1913 na primeira apresentação oficial do Boi-Bumbá Garantido pelas ruas de Parintins. Quem foi fundado primeiro, ainda é o mistério de uma história que rende discussão até os dias de hoje. A certeza é que desde que ambos os bois nasceram, nos tempos que a celebração regional acontecia pelas ruas da cidade de forma simples e arcaica com bois-de-pano medieval trazido pelos imigrantes (sem os recursos monetários e aparatos técnicos atuais), os dois bois-bumbás sempre se desafiaram como eternos rivais, sendo que nenhum deles vive sem a existência do "contrário" (6).

Neste passado distante, segundo Odinéia Andrade (7), os Bois-Bumbás após serem os bois de ruas, se tornaram consecutivamente boi de terreiro e de quintal, e em seguida boi de casas - fazendo o auto do tira língua (vender a língua) e cantando nas casas de quem pagasse pela apresentação ou nas residências de seus antigos mecenas e amigos do Boi (8). Mas sob a influência de aspectos do carnaval do Rio de Janeiro, a rivalidade ganhou espaço próprio na quadra do JAC (Juventude Atlética Católica), e o tornou no boi de quadra ou de festivais, ganhando o sentido de competição a partir de 1966, com a organização do FFP com regras para a disputa entre os bois-bumbás, como forma de melhor organizar o festejo e a própria história regional da sociedade, e que fez com que maior acontecimento de cultura popular do Amazonas assumisse a tipologia única no cenário das festas populares brasileiras.

Pintura de Lindolfo Monteverde numa parede do antigo curral do Garantido junto a Ivo Monteverde, neto do fundador do Boi e coordenador da Batucada – bateria do Garantido.

As transformações decorrentes na tradição secular deste folguedo popular, fruto das tradicionais festas juninas, foram criadas e reinventadas durante todo o século XX na cultura parintinense, através do intercâmbio com outras festas da cultura popular brasileira, principalmente o carnaval do Rio de Janeiro (9), no qual os artistas e artesãos aprenderam muito e vice-versa (10), e atingiram a enormidade de grande evento cultural artístico público (11).

 O FFP ajuda a proporcionar uma identidade nítida à cultura do Amazonas, resguardando no contexto atual de globalização, hibridismo e multiculturalismo, uma dinamicidade e vultuosidade pregadas por características políticas progressistas de desenvolvimento social (12) que se manifestam através do turismo cultural e ecológico, e alimenta entre os seus cultuadores a idéia deste ser um dos grandes espetáculos da terra. O FFP é uma ação contemporânea dinâmica que se volta para o passado fazendo sentido no presente, demonstrando suas especificidades locais e seus pontos de preocupação, se tornando uma memória social na construção da identidade regional do norte do Brasil que ganhou o mundo por toda a sua emoção, energia e a magia folclórica de tornar sonhos em realidades. 

A colonização portuguesa em 1669 no território da antiga capitania do Grão-Pará trouxe os padres da Companhia de Jesus para visitar as missões ao longo do rio Amazonas. Os religiosos estabeleceram uma capela na aldeia e a batizaram de São Miguel dos Tupinambarana, primeiro nome oficial do lugarejo, que era povoado pelas tribos Parintintim (13), MundurucúPatuarana, Sapopé e algumas outras. A região atravessou vários ciclos econômicos como: o comércio de especiarias, produtos extrativistas e o cultivo da juta, fibra indiana introduzida pelos japoneses na segunda metade do século XX que se tornou pauta de exportação do Estado do Amazonas. A vocação para pecuária e para a pesca sempre foram uns dos sustentáculos da economia local, tanto que a gastronomia em Parintins tem nas tradições indígenas e nos pescados como: pirarucu (14), tucunaré, tambaqui, jaraqui e o bodó com tucupi (15) , os principais itens para a mesa. Em 1880, como Vila Bela de Parintins, a comunidade foi elevada para categoria de cidade, sendo hoje um próspero município que tem no turismo cultural a principal atividade econômica.

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