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[Page 2: A identidade do Amazonas expressa no folclore do Boi-Bumbá
por Erick Bessa Pinheiro]

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SLOGAN DO FESTIVAL

Residência da fazenda Santa Maria, na comunidade ribeirinha de Paraná do Corocoró, Nhamundá, interior do Amazonas, de propriedade de Pedro Calabar Pinheiro.
Caboclo Calabar praticando pesca.
Pecuária na Fazenda Santa Maria.

A cidade ribeirinha de Parintins ou ilha Tupinambarana considerada encantada por seus habitantes hospitaleiros e orgulhosos devido ao folclore localiza-se na margem direita do rio Amazonas, a 50 metros do nível do mar, no meio da floresta Amazônica, denominado de Baixo Amazonas, estando 420 Km a leste de Manaus, sendo reconhecida na linguagem indígena como: noçoken, o "Paraíso" pelas belezas naturais, ou a Paris brasileira. A geografia de belos atrativos naturais num ecossistema de várzea e terra firma, se desvenda por um conjunto de ilhas e lagos de diversificada flora e fauna, especialmente as aves, e se complementa com a serra de Parintins, a 150 metros do nível do mar.

A cidade de 97 mil habitantes que se enfeita para promover o festival, chegando a receber 100 mil turistas do Brasil e do mundo, é dividida ao meio urbanisticamente pela cultura do Boi-Bumbá na rua Clarindo Chaves, a fronteira entre os dois territórios que dá a demonstração clara do confronto. Na parte baixa: do porto a catedral de Nossa Senhora do Carmo (região central da cidade), denominada de Baixa do São José, são os domínios do Boi Garantido, o boi branco do coração, o "encarnado", vermelho, cor da agremiação e de casas desta localidade. Na parte alta, a partir da catedral, são os domínios do Boi Caprichoso, boi da Tradição, o "diamante negro", o boi preto da estrela azul, cor da agremiação assim como de muitas residências desta localidade. De um ponto alto como a torre da catedral é possível visualizar os pontos onde se localizam os currais (16) dos Bois-Bumbás hasteados pelas imensas bandeiras das agremiações. Tudo isso reflete a força motriz deste espetáculo em sua geografia, relações sociais e no conteúdo visual e imaginário deste povo amazonense.

O FFP abrange o universo do caboclo (17) enraizado nas lendas amazônicas, ritos indígenas amparados pela paixão à cultura do Boi-Bumbá, abordando temáticas de compromisso político que se dimensionam na preocupação de preservação cultural da identidade amazonense, a ampla biodiversidade do ecossistema e preservação ecológica da floresta Amazônica como um patrimônio necessário à preservação da própria vida, com discussões sobre a realidade atual do ecossistema e os desafios para o futuro da região, visando alertar contra a devastação empreendida pelo homem à fauna e a flora, devido à exploração predatória com a conseqüente dizimação dos povos mebemgokre (18), assim como as peculiariedades da cidade arquipélago de Parintins.

Para exemplificar na prática a abordagem dos estudiosos dos Bois-bumbás na confecção dos temas a serem apresentados no FFP, segue uma série de fotos da realidade das crianças ribeirinhas do estreito de Breves, objeto temático do Boi Garantido no dia 29, para representar o item Figura Típica Regional e que teve como toada: "Pescadores de doações" de autoria de Rozinaldo Carneiro e Aldson Leão.

Ponto próximo a entrada do estreito, onde começa à aparecer "os pescadores de doações" vindos em canoas das margens do rio onde moram, para pedir e pegar doações jogadas pelos passageiros das embarcações que descem o rio para Belém. Uma face da mendicância brasileira transparente na cultura do caboclo do norte do país na luta pela sobrevivência. Canoa com um grupo de crianças ribeirinhas - as duas mais velhas remam contra a forte corrente do rio. Este grupo sem sorte não pegou nenhuma doação, simplesmente tornaram-se retrato da carência de muitas destas famílias brasileiras que dependem do que vai e vem pelas embarcações que navegam ao longo do rio. O encarnado esculpido no muro ao redor do bumbódromo ao lado da Boiúna ou sucuri, a cobra grande, figura mitológica das lendas amazônicas de vários tribos indígenas.

Esta grandiosa festa da expressão cultural brasileira apresentada anualmente tem como foco principal a histórica rivalidade entre as duas "nações", as Agremiações folclóricas de Boi-Bumbás: Garantido e Caprichoso, que disputam o título de campeão do festival junino na arena do Bumbódromo (19) da cidade, reunindo as toadas, dança, teatro, artes plásticas e a paixão enlouquecida e coreografada das "galeras", as típicas torcidas dos bois-bumbás. O resultado é a criação de uma ópera performática, em um espetáculo complexo que manifesta uma constante renovação, devido às criativas inovações dos artistas e artesãos que provoca um permanente impulso de superação através da arte, inspirado nas raízes da tradição cultural indígena amazônica, da cultura do caboclo, afirmada como identidade regional originária desta tradição, mesclado ao conteúdo original do Auto do Boi, de características européias, que encontraram no contexto colonial brasileiro sua especificidade e autenticidade, e se difundiram a partir da imigração vinda do Nordeste, de acordo com as características de cada região em que foi abraçado, mobilizando o desenvolvimento contínuo deste folguedo popular.

A festa acontece durante os dias 28, 29 e 30 de junho. Em cada dia os bois-bumbás apresentam seus itens e encenações dramáticas em atos contínuos que duram mais de duas horas. Os personagens de cada item possuem fantasias com predominância de material reciclado da natureza e artificiais. Os brincantes (20) se apresentam na arena em forma de figuras regionais ou mitológicas do folclore ou dentro das gigantescas alegorias de animais, deuses e cenários construídos em módulos que se encaixam e se transformam sob efeitos especiais e visuais guardados em segredo até o dia das apresentações. Sempre com a ativa participação das galeras cantando e coreografando danças com materiais: bandeiras, velas, lanternas, fitas, pápeis coloridos, chapéus e etc.. Após os três dias de festival um dos bois sai vencedor por decisão de um júri especializado escolhido pelas próprias agremiações.    

 

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