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FRONTEIRAS: Imaginários Híbridos/ Geografias Fraturadas

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Ulla Berg completou seu curso de Mestrado em Antropologia na Universidade de Copenhague, em 2001. É candidata a doutorado em Antropologia pela New York University e estudante graduada no Program in Culture and Media da Universidade de Nova York. No momento está escrevendo sua dissertação sobre imigração entre o Planalto Central do Peru e os Estados Unidos com enfoque sobre as práticas comunicativas, comunidades transnacionais e a política de espaço. É editora, com Karten Paerregaard, do livro El Quinto Suyo: Transnacionalidad y Formaciones Diaspóricas en la Migración Peruana (IEP, 2006). Outros trabalhos apareceram en Perú: El Legado de la Historia (Sevilla, 2001), Revista Academia Diplomática Peruana (2205) e, em breve, na revista Latino Studies. Está afiliada ao Instituto de Estudios Peruanos em Lima e é coordenadora do Peruvian Migration Network -- uma rede internacional e interdisciplinar de acadêmicos trabalhando em diversos aspectos da migração transnacional peruana. Dirigiu, editou e produziu o documentário Esperando Milagres (2003) sobre a Hermandad del Señor de los Milagros em Nova York (uma irmandade católica peruana que, todos os anos, realiza uma procissão em homenagem ao Senhor dos milagres. Atualmente trabalha num documentário sobre o poeta peruano Domingo de Ramos.

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Roberto Varea começou sua carreira como ator e diretor em Córdoba, sua cidade natal, na Argentina. Ao receber seu MFA em Teatro/Direção pela UCSD, em 1992, mudou-se para San Francisco onde reside atualmente. Seu trabalho criativo e suas pesquisas enfocam os temas da performance e sua relação com a violência do Estado e os movimentos de resistência. Já apresentou e deu palestras sobre seu trabalho nos Estados Unidos e estrangeiro. Dirigiu numerosas produções e oficinas associadas ao temas de desenvolvimento de novas peças dirigidas às comunidades, em particular, às Chicana e Latina. Seu trabalho de direção -- incluíndo estréias das obras de Cherríe Moraga, Migdalia Cruz, Jose Rivera e Ariel Dorfman -- já foi apresentado em Brava!, Campo Santo/Intersection for the Arts, The Lorraine Hansberry Theater, The Magic Theater e El Teatro de la Esperanza; para citar apenas alguns espaços na Bahia de San Francisco. Roberto é o diretor/fundador do Soapstone Theatre Company, um grupo coletivo de ex-detentos e mulheres que sofreram crime de violência e do El Teatro Jornalero!, um grupo de performance que traz as vozes dos trabalhadores imigrantes latino-americanos para o palco. É professor de teatro na University of San Francisco onde co-fundou o Performing Arts and Social Justice Major. Além disso, ensina teatro no Sisters Project, o qual reúne mulheres encarceradas na Prisão do Condado de San Francisco. Também participa do quadro do Yerba Buena Gardens Festival e do The Consortium on Latin American Immigration. É editor associado do Peace Review, um jornal internacional sobre paz e estudos sobre a justiça, publicado pela Routledge Press.

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Enquanto eruditos e acadêmicos da globalização nos anos 90 prediziam de uma maneira otimista o começo da era pós-nacional, marcando o término da fronteira internacional e da Nação-Estado como se conhecia até então, eventos globais recentes assinalaram exatamente o oposto: os desafios colocados pela globalização para manter e assegurar soberania, acoplados a um renascimento furioso do "estado de segurança" depois do 11 de setembro, intensificaram o interesse das Nações-Estados de manter controle sobre as fronteiras nacionais e, em particular, sobre os fluxos dos corpos atravessando essas mesmas fronteiras. O aumento dos muros de segurança, postos de controle em fronteira, tecnologias de segurança sofisticadas, intolerância e criminalização do "Outro" cultural, religioso e político, no entanto, felizmente, não foram capazes de atrapalhar ou silenciar a vontade resoluta ou o desejo de "atravessar" disposta pelos muitos atores sociais em diferentes contextos. Em série com as tentativas das instituições poderosas, como colonialismo, o Estado, e a lei determinando rígidas fronteiras, categorizando populações e limitando espaços para a participação cívica, estamos testemunhando uma imaginação prolífica e imediata no território do corpo humano ou no espaço virtual da comunicação digital. Dedicamos este número de e-misférica à exploração de como as realidades vividas e encenadas do translocalismo criaram novas geografias globais e imaginários, marcados não somente pelas fronteiras duradouras e de exclusão, mas também por novas fronteiras liberadoras.

O atual interesse pelo estudo das fronteiras refletido aqui não está apenas influenciado pelas mudanças reais no mundo, mas também pelas maneiras com as quais olhamos o mundo e o abordamos para uma análise. As teorias críticas pós-modernas, pós-coloniais e feministas abriram "espaços terceiros" importantes para o questionamento das hierarquias dominantes e as "fronteiras impostas" baseadas nas categorias (e admitidas como certas) de raça, sexo, gênero e nacionalidade. As posições que se dizem falar "a partir das margens" ou a partir da "diferença colonial" chamaram a atenção para como as fronteiras podem ser produtivas ao pensar com elas ou a partir delas, explicitando a mesma política da produção de conhecimento. FRONTEIRAS: Imaginários Híbridos/ Geografias Fraturadas se fundamenta em tais abordagens interdisciplinares e anti-autoritárias ao estudo das fronteiras. Engajar as fronteiras, no plural, a partir de uma perspectiva perfomática é particularmente útil ao nos permitir olhá-las como produzidas pelos diferentes eventos perfomativos e expressões, assim como ser representadas e encenadas por uma multiplicidade de atores. O estudo das fronteiras é, desta forma, atual e de muito valor. Ao invés de testemunhar o desaparecimento das fronteiras, estamos, de fato, observando diretamente sua multiplicação. Fronteiras novas, previamente impensáveis, físicas, virtuais e imaginadas emergem em torno de todos nós -- não apenas nas Américas, mas também no resto do mundo.

Este número reúne trabalhos originais em diferentes formatos -- ensaios, artigos breves, documentação de performance, fotografia e vídeo assim como resenhas de livros, projetos e performances -- por artistas, acadêmicos e ativistas políticos que se dirigem aos problemas de fronteiras a partir de vários ângulos, disciplinas e locais geográficos. Como editores, tentamos balancear o número, selecionando trabalhos acadêmicos e artísticos assim como intervenções ativistas que iluminem as várias dimensões -- poéticas, políticas, e, às vezes, perversas -- das fronteiras e daqueles que as atravessam.

A realidade vivida da imigração transnacional é talvez a mais paradigmática de todas as travessias de fronteiras e tem um lugar de destaque neste número no qual os artistas e acadêmicos elaboram as mais diversas experiências de imigração. O ensaio de Alyshia Galvez reflete sobre o que ela chama de "o desatento aparente do público geral nos Estados Unidos à crise humanitária na fronteira dos E.U.A-México". Partindo do paradoxo que o cumprimento da lei da fronteira intensificado nos últimos anos entre os E.U.A. e o México pela American Homeland Security não impediu os imigrantes indocumentados de atravessarem, mas produziu mais mortes do que antes destas tentativas, Gálvez pergunta o porquê deste fato ter sido amplamente ignorado pelos debates públicos nos Estados Unidos. Sugere que isso tenha a ver com a dissonância entre a presença física e econômica dos imigrantes e sua ausência do imaginário social da América mainstream. O trabalho de Víctor Cartagena sobre a experiência dos imigrantes salvadorenhos também se destaca como um raro lembrete público das maneiras pelas quais os entreleçamentos sociais americanos (leia-se E.U.A.) sistematicamente usa e exclui o trabalho do imigrante. Ao empregar objetos como saquinhos de chá ou caixas de entrega pelo correio como discurso poético onde estes homens e mulheres são apresentados como mercadorias descartáveis. Em contraste, do outro lado da fronteira -- na Cidade do México -- os imigrantes mexicanos têm um lugar no imaginário público, evidenciado na instalação da artista mexicana Mariana Zapata num dos parques públicos da cidade como parte da sua performance intitulada "Reforma Migratoria", que aqui recebeu uma crítica de Stephany Slaughter.

Mas, independente de seu lugar no imaginário público mainstream, os imigrantes de todas as partes no hemisfério imaginam novas geografias e paisagens sócio-políticos nos quais eles -- assim como reconhecidos cidadãos -- têm direitos para reivindicar e fronteiras para atravessar. Mencionamos dois exemplos importantes na primavera de 2006: as passeatas massivas de imigração em várias cidades dos Estados Unidos contra a legislação anti-imigratória HR 4437 atualmente sendo debatida no Congresso, culminando no dia de ação nacional "Um Dia Sem Imigrantes," e as passeatas conduzidas pelos trabalhadores bolivianos do setor têxtil na Argentina, denunciando as violações flagrantes dos direitos humanos e as abusivas condições de trabalho. Estes dois eventos certamente tiveram seus efeitos não somente nas economias locais, mas também nos debates públicos em cada respectivo país. Em nossa seção POV, Renee Saucedo discute as propostas legislativas anti-imigratórias atuais e os desafios futuros do movimento dos direitos dos imigrantes nos Estados Unidos. Enquanto o trabalho de Saucedo oferece uma perspectiva pró-labor sobre as políticas de imigração atuais, do outro lado do hemisfério, M. Ines Pacecca e Corina Courtis intervêm no debate sobre os imigrantes bolivianos trabalhando nas pequenas fábricas da Argentina. As conclusões tiradas por Pacecca e Courtis são semelhantes as de Saucedo no que se refere a falta de documentação devida, os imigrantes ficam mais vulneráveis à explotação de trabalho e às contradições da lógica da acumulação flexível da economia global.

A pesquisa de Santiago Canevaro foi também realizada na Argentina, mas entre um grupo diferente de imigrantes sul-americanos. Canevaro investiga o cenário e o embaçar das fronteiras culturais e étnicas no contexto de uma oficina de teatro freqüentada, em sua maioria, por jovens peruanos indocumentados na Universidad de Buenos Aires. Os jovens peruanos na Argentina, Canevaro argumenta, se envolvem em várias práticas performativas através das quais tentam resolver problemas no que diz respeito as suas próprias identidades esteriotipadas como imigrantes, assim como estratégias de como "passarem-se" por agentinos. O trabalho tem como resultado um retrato revelador e pessoal do jovem imigrante se questionando ou se afirmando contra a dura realidade dos comportamentos, maneiras de se vestir ou gírias locais estigmatizados ou socialmente aprovados.

As performances nunca acontecem unilateralmente ou num vácuo político. Ao obter material a partir da Comemoração do Aniversário de George Washington em Laredo, Texas e em Nuevo Laredo, Tamaulipas, Elaine Peña nos mostra como a transposição encorporada das mitologias e histórias coloniais dos Estados Unidos apontam para o espaço fronteiriço despolitizado, fazendo a co-existência do cruzar fronteiras entre estas duas cidades portuárias norte-americanas parecerem harmoniosas. A cortina detrás da performance "o abraço das crianças"-- onde um menino e uma menina de cada Laredo se encontram para se beijar e trocar presentes -- obscurece o real pano de fundo da violência imprescindível relacionada às drogas e às desigualdades estruturais e politicas construídas historicamente nessa região fronteiriça. É uma paisagem semelhante a essa que fornece o meio ambiente de trabalho para o arquiteto Teddy Cruz cuja obra foi criticada e analisada por Rodrigo Tisi. Ao escrever de seu estúdio na área de San Diego/Tijuana, Cruz afirma que "extremas geografias de conflito (...) tornam-se o local onde práticas arquitetônicas participatórias e alternativas em direção a cidade podem emergir e o papel do urbanismo oficial, questionado". De maneira contrária, os retratos apresentados pelo fotógrafo argentino Julio Pantoja são um estudo do choque entre a presença humana e o meio-ambiente imponente em duas terras froneiriças distintas: a selva amazônica e a mesmíssima fronteira entre os E.U.A. e o México. Os indivíduos de Pantoja talham suas silhuetas contra paisagens extremas, embora viçosas ou áridas, forçam aqueles que se aventuram perto destas fronteiras a envolver-se numa batalha de sobrevivência implacável.

Ninguém jamais engajou o híbrido como estratégia de auto-definição irrevente e consciente para um engajamento criativo e político como o artista performático Guillermo Gómez Peña. Compartilhamos uma seção da recente produção criativa deste perigoso bordercrosser, indo da poesia e vídeo para a foto performance e um texto desenvolvido em conversa com a curadora argentina Gabriela Salgado. Esse ensaio explora "as zonas de silêncio" no mundo da arte global, questionando não apenas a censura e auto-censura, mas também o cenário dos limites do que é "aceitável" e a elasticidade do que é "permissível". Em seu estudo da dança quebradita, a etnomusicóloga Sydney Hutchinson também foca sobre a estética híbrida no comportamento expressivo encorporado -- aqui como coreografia -- no contexto da imigração E.U.A-México. Em seu ensaio e material multimídia, mostra como os princípios formais da quebradita, expressados através da roupa ocidental e chamativa e o som rápido e estridente de uma tecnobanda, deu uma significação política e visibilidade para aqueles encenando esta dança méxico-americana durante o período em que a Proposição 187 da Califórnia procurava negar direitos básicos aos imigrantes.

Enquanto trabalhos sobre a fronteira E.U.A-México estão em destaque neste número -- parcialmente devido ao desenvolvimento desigual do trabalho acadêmcio sobre diversos grupos imigratórios, procuramos também enfatizar as colaborações que iluminam a experiência do outro latino- americano e caribenho que atravessa a fronteira. Como nos são mostradas pela artista dominicana, residente em Nova York, Scherezade Garcia, as fronteiras nacionais não são apenas territoriais em termos de solo, mas também em termos de água. Scherezade explora a 'fronteira líquida' que separa a República Dominicana e Puerto Rico e as travessias que freqüentemente levam a morte daqueles, no Estrecho de Mona, a procura de "salvação" no Norte. Também falando dessa região, Vivian Martinez da Casa de las Américas faz uma crítica sobre Delirio Habanero de Alberto Pedro Toriente, recentemente estreada no Teatro Mio, em La Habana, Cuba. Martinez contextualiza Delirio, uma peça de lembranças ambientada numa moldura cultural e política da Habana dos anos 90 dentro de toda obra de Torriente, já morto, cujos temas freqüentemente abordavam e questionavam identidade, imigração e fronteiras.

A realidade da travessia entre fronteiras tem como resultado choques e adaptações incorporados que inevitavelmente afetam a língua falada coloquial. Para os dramaturgos e dramaturgas latinos e latinas nos Estados Unidos, isso encontra expressão na voz híbrida, frequentemente questionada pelos puristas da língua inglesa e do espanhol castelhano. NoPassaport -- uma rede de artistas de teatro (em sua maioria dramaturgos) fundada por Caridad Svich -- patrocina "Entre Línguas: Uma mesa-redonda com Oliver Mayer, Anne Garica-Romero, Elaine Romero e Caridad Svich". Cada dramaturgo da mesa-redonda pondera sobre seu relacionamento particular com a mudança de códigos e seu Spanglish falado e escrito.

Estamos também felizes em apresentar uma nova seção da e-misférica intitulada Relatórios de Campo que apresenta trabalhos de jovens acadêmicos que refletem -- em narrativas curtas e em primeira pessoa -- sobre suas experiências de pesquisa e projetos atuais. Nesta primeira edição de Relatórios de Campo incluímos os trabalhos de Pablo Assumpção (Brasil), Anurima Banerji (Canadá) e Natalia Gavazzo (Argentina).

Fronteiras se encontram em toda parte. Em nossa volta. Nos divide e nos permite reunirmos. Marcam nossos territórios, nossos corpos, nosso falar. São reais e imaginadas, porosas e duras, visíveis e invisíveis, dominantes e sutis, mas acima de tudo, políticas. Assim como elas atrapalham e impedem nossa expansão e crescimento, também moldam nossas identidades e sentidos do nosso Eu. Tornam-se social e culturamente significativas na maneira pela qual assinalam um fim para a possibilidade, mas também codificam uma possibilidade a qual elas mesmas negam: a performatividade e o ato necessário de serem atravessadas. Enquanto as fronteiras existirem virtual, física, legal e ilegalmente, existirão também aqueles que as atravessarão.

Os Editores, San Francisco e Nova York, Novembro de 2006

Prólogo Editorial

Ensaios

Pontos de Vista

Apresentações dos Artistas

No-Mad Remixed. A work(s) sampler


Migration Exile and Memory


Sabana de la Mar. Salvation Action


Performativity in Architecture


Borderlands at Shutter Speed. Tijuana & Amazonas



mesa redonda

Spanish Dreams


The Spanish Crucible


Sustaining a Spanglish Soul


Negotiating Tongues



Humor

Humor



Notícias & Eventos