Ações de Eleonora Fabião

Fabião, Eleonora e André Lepecki (orgs.). Ações Eleonora Fabião. Rio de Janeiro: Itaú Cultural, 2015.

Fabião Eleonora e André Lepecki (orgs.). Ações Eleonora Fabião. Rio de Janeiro: Itaú Cultural, 2015.

O livro organizado por de Eleonora Fabião e André Lepecki é composto por um valioso repertório de performances urbanas realizadas pela artista, pelas ruas de diversas cidades do mundo, de 2008 a 2015; ano também, desta publicação, editada em português e inglês e intitulada Ações Eleonora Fabião.

Repleto de belas imagens e narrativas poéticas que revelam os “programas” de ações, o livro agrega reflexões da performer e ensaios que trazem um respeitável panorama de colaboradores (na ordem do livro) como Pablo Assumpção B. Costa, Diana Taylor, Barbara Browning, Tania Rivera, Felipe Ribeiro, Adrian Heathfield e André Lepeck--também organizador do livro.

Vale destacar que a edição do livro e a autora das performances contaram com o apoio do Programa Rumos Itaú cultural 2013/2014, um dos mais disputados projetos de política cultural em âmbito privado no circuito brasileiro. Ações Eleonora Fabião é um livro-performance criado no conjunto do Projeto Mundano – Livro, Exposição de Rua e Performances, sendo, portanto, uma decorrência teórica da força afetiva das práticas de rua da performer. O livro tornou-se um marco na trajetória artística e acadêmica da-e-sobre Fabião, pesquisadora e professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), reunindo uma série radical de programas performativos e debates que reiteram a associação da artista às políticas do corpo, práticas artísticas radicais, resistência e a(r)tivismo, em movimentos por onde pode-se reconhecer a contemporaneidade das artes.

A capa amarelo-sol do livro Ações sustenta a palavra única que soma força(s) e movimento(s), supondo que ela contém o debate sobre as relações entre uns e outros. Deste modo, as experiências “ao vivo” e a concretude das narrativas alinhadas no livro configuram o gesto que representa a complexidade e a genuinidade das escolhas (não) estéticas que inspiram os trabalhos de Eleonora Fabião. Movida pelo campo relacional, e, portanto, presencial e duracional das ações, a autora instaura, nesse formato de livro, conexões com conceitos e práticas envolvidas na amplitude da ideia da performance que, além de qualquer categorização desnecessária, representam o pensar-em-movimento da artista. O que move o corpo na conjugação da vida e da arte inspira seu modo de pensar, agir e escrever. A diferença inscrita na capa do livro, onde Fabião anuncia o movimento que resiste em torná-lo mercadoria, e desse modo, remete-o ao princípio que elogia a partilha e o coletivo, significativos conceitos da história e da ontologia da arte da performance. Provocando graça e estranheza, a capa do livro traz, logo abaixo do título e do nome da autora, um parágrafo de 16 linhas (sem qualquer ilustração!), no qual a artista avisa que esse livro não pode ser vendido nem comprado, apenas dado, trocado ou encontrado em bibliotecas ou ao acaso até mesmo nos mais improváveis lugares, como à beira do mar ou sobre capôs de carros.

Deslocando-se dos clichês performativos o livro busca materializar a poética dos corpos com palavras, sensações e imagens, cartografando o fluxo e a efemeridade dos atos realizados pela artista. Este formato de livro faz perceber além das possibilidades óbvias de objetificação e, faz entender, que o manuseio sucessivo e lúdico das páginas gera um estado de cumplicidade entre os corpos ausentes e presentes, provocando assim, distintas afetações nos leitores, correntemente sem ações e reações visíveis. A série de performances reunidas no livro não busca meramente suprir a ausência daquilo que passou, mas certamente, quer desenhar outras possibilidades práticas enunciadas em um novo acontecimento, embora fluxo do processo do acontecimento anterior, que é o da espacialidade visual e tátil do livro. Este novo acontecimento configura a dimensão performativa dos textos, não sendo, portanto, a redução dos eventos anteriores.

O livro brinda-nos com o repertório de performances, avançando sob uma ordem singular, por onde se pode entender o modo de operar poético e político da artista. A trajetória coloca em evidência um percurso que tem o corpo como campo de batalha e a rua como forma de resistência. As Ações vão constituindo um discurso que confronta o consumismo, o utilitarismo e as tensões entre o público e o privado, para as quais ela vai dando forma ao cotidiano e enquadrando poeticamente pela moldura da performance. Dando visibilidade aos passantes anônimos e fazendo da desordem da cidade o cenário de um teatro do verossímil, entrevemos nas fotos a figura solitária de Eleonora Fabião. E como a descreve Adrian Heathfield na obra “Brasil: o momento em que o copo está cheio e já não dá mais para engolir”: “Ela é um ser alterado, um gesto inexplicável é um distúrbio móvel e sensual, perturbando as funções sociais e realidades sedimentadas nesse lugar. Ela é uma geradora de discurso social” (322).

As imagens que dão sequência às Ações permitem entender que re-apropriando-se dos lugares por onde passa a artista faz das cidades um espaço de escuta e reverberação dos ruídos, vozes, coisas, pessoas, visualidades, espacialidades e temporalidades urbanas, tornando visível as invisibilidades que os corpos inscrevem nos lugares em que as performances acontecem. Cada Ação leva um nome que supõe um “programa”, e também os deslocamentos geográficos das performances mundo afora, como se pode perceber na lista de Ações abaixo citadas:

“Ações Cariocas”; “Ações Berlinenses; “Ações Bogotanas”; “Ações Fortalezenses”; “Linha Nova Iorque”; “Série Íntima”; “Série Precários: “Rio de Janeiro”; “Ações Rio-Pretenses”; “Quase nada, sempre tudo”; “Manchas”; “Série precários: Montreal”; “Pixo a guache”; “Não compro lata velha”; “Brasil: o momento em que o copo está cheio e já não dá mais pra engolir - nosso caso é uma porta entreaberta”; “No meio da noite tinha um arco-íris, no meio do arco-íris tem uma noite”.

Diante desse panorama pode-se entrever o cotidiano e as ações transcorrendo, simultaneamente, na arquitetura dos lugares, ruas, calçadas, praças e interior de casas. Lugares que constituem uma dramaturgia de memórias culturais e históricas de cada um, de cada cidade e de uma época, capturando ritmos da vida marcados pela multiplicidade de pessoas, espaços e afetos que se mobilizam a partir do contato direto da performer com os seus interlocutores. A narrativa do livro se articula a partir desse conhecimento prático e teórico, desconstruindo modelos e representações, e deixando entrever, pelas frestas da imaginação, transgressões temporais e espaciais que desencadeiam, por sua vez, uma sofisticada vertigem na corporeidade do leitor que segue a narrativa das experiências. Este “corpo-livro, relação da vida com o que se escreve”, esclarece de Certeau (2012, 271), se liga à capacidade da artista de fazer da experiência da escrita um desdobramento do vivido.

Todo este turbilhão de possibilidades que provoca o conjunto da materialidade performativa mobiliza o leitor. Não há como deixar de pensar de onde surgiram tais iniciativas, como são pensadas, articuladas e realizadas. “Não uso estúdio ou sala de ensaio. Não faria sentido. A rua é o espaço de trabalho” (196), comenta Eleonora Fabião antes que lhe perguntem como se desenrolam os seus processos de criação. Existe, no entanto, uma aparição luminosa da artista que se destaca do fundo do panorama vivo das ruas. Ao mesmo tempo, a sutileza e a potência dos gestos contidos da artista revelam um processo coerente entre a preparação e a realização. Se o enunciado da performance, ou o que ela chama de “programa” contém ações que são previamente articuladas, e se a temporalidade do programa é muito diferente do espetáculo, do ensaio, da improvisação, da coreografia, fica a questão, como se prepara a performer?

Na série de Ações “Converso sobre qualquer assunto” histórias de vida são contadas, intimidades são reveladas e trocadas em conversas soltas, sujeitas ao acaso. A iniciativa quer capturar “algo” nestes encontros, algo que acontece entre pessoas e objetos nos diferentes espaços da rua, que a performer atribui como sendo o lugar onde o imponderável acontece. Não se trata, evidentemente, de uma artista que quer vasculhar a intimidade alheia para dela extrair histórias representadas com a matéria da “vida real”, mas dramaturgias que constituem um campo de forças e que se fundem com as formas de vida. Para além do encontro entre sujeitos e egos, o corpo-a-corpo agência utopicamente os processos de singularização, e coloca em xeque os hábitos que se sobrepõem na moldura fluída dos encontros. Talvez, o encontro das distintas realidades, ordinárias e estéticas, seja suficiente para produzir o ato criativo que transforma, sutil e inevitavelmente, o cotidiano da cidade e das pessoas.

Ao longo da apresentação das Ações, a autora intercala pensamentos que redimensionam o seu discurso. Ideias que remetem e pertencem ao conjunto das mesmas, situando-se, assim, mais à frente das discussões estéticas para expandirem-se nas formas da ética. A escrita deleita-se nos diálogos com Hannah Arendt, Baruch Espinosa, Michel Serres, Gilles Deleuze, José Gil, Walter Benjamin, Michel Foucault, entre outros. Essas referências teóricas sustentam, também, o debate sobre a “Linha”, experimento em que ela convida alguém para que, juntos, possam “cometer performances”. São pequenos atos chamados de “Linha”, gerados e praticados à dois, que colocam na pauta central os “encontros com o encontro”, os quais desdobram-se em ações descritas ao longo de 6 pontos, na seguinte ordem: encontro, encontros com o encontro, autovigilância, anticrime, amizade política e estética da precariedade.

A questão do “Encontro (ponto 1)”, como a palavra sugere, configura-se como uma prática estimada do performativo. No entanto, o ato de olhar, escutar, sentir, refletir, tocar e trocar com o outro faz com que o encontro ganhe novos sentidos, fruto das relações “ao vivo”. O que Fabião não quer é “tornar o impossível possível, mas sim viver impossíveis” (117). Sobre isto a artista lembra de um episódio quase quimérico quando fazia “Converso sobre qualquer assunto”, em Bogotá, em 2009. Conversando com um menino, que sai e volta com alguns alunos de uma escola próxima, curiosos, abrem uma roda de conversa com a artista. Depois de boas tagarelices, Fabião propõe dar um presente para quem adivinhar o nome da filha dela. A artista não esperou muito para ouvir de uma vozinha daquele grupo: “Valentina”. A artista, perplexa, jamais havia imaginado essa possibilidade do impossível acontecer. Mistérios à parte, o conceito de encontro ganha relevância para o contexto da arte contemporânea. No afã de romper com uma determinada representação e tradição mimética, a arte busca, como contrapartida, a ênfase nas relações de toda ordem e faz do contato com todo tipo de corpos, pontes para as articulações poéticas e vitais, como diz André Lepecki, “em um não lugar chamado ação” (333).

“Da autovigilância e do anticrime (ponto 2)” remete às reflexões sobre a sociedade do controle que se segue à sociedade da disciplina, segundo Michel Foucault. A partir do pensamento do filósofo, essa ação quer ampliar a perspectiva do dentro-fora-casa-rua na medida em que a artista enfatiza uma noção de intimidade, marcando um encontro com alguém com quem, depois de muita troca de ideias decide, em pares, como subverter a ordem das coisas. Derivados desses encontros, Eleonora e Jeff decidiram e se jogaram de mãos dadas nas águas do Rio Hudson; Eleonora se deixou pintar o corpo por Anne; plantou sementes portuguesas nos canteiros do Battery Park com Olívia; levou um pé de figo a passear de barco e o “plantou” na barriga de Raquel; se vestiu de fantasma com Lucy e caminhou de mãos dadas pela Avenidas das Américas, em Manhattan; e, por último, pintou frases em camisetas para visitantes do Central Parque, junto com Miki.

“Da amizade política (ponto 3)” a artista parte do livro Talking to strangers, de Danielle Allen, em diálogo com Aristóteles. O frutuoso terreno da amizade faz Fabião expandir seus sentidos para “amizades performativas, transitórias, intensas, praticadas” (121). A amizade é, também, o sentimento que reúne os ensaístas convidados. Importante ressaltar a dimensão política que a artista dá ao desenvolvimento dessas amizades-performativas, as quais “são o oposto do jeitinhos, apadrinhamentos, favores e favoritismos tão arraigados na cultura brasileira” (121).

Em “Ponto 4” ou “Ponto sem nó do encontro com o encontro” a performer aposta na figura da “Linha” como um desenho que desfia o fluxo e a flexibilidade dos corpos e assim vai, continuamente, gerando outros encontros, enfatizando a singularização do sujeito, gerador de acontecimentos e agenciamentos coletivos. A partir de “coordenadas espaciotemporais” --como prefere Fabião (122) ao invés de identidades fixas e imutáveis--, as ações devem permitir a abertura para se pensar novas possibilidades de existência e convivência.

“Dos pés, mãos, umbigos, janelas e portas (ponto 5)”, a princípio, é um registro desse movimento de ir e vir, fora-dentro, casa-rua e, de modo mais amplo, dessa percepção de identidades que se alojam nos corpos, nos objetos como portas e janelas e que distinguem as formas de vida de cada um.

“Da estética da precariedade (ponto 6)” destaca-se como uma potente referência teórica: “Precariedade é ferramenta conceitual utilizada para flexibilizar definições rígidas --de ‘espectador’, ‘artista’, ‘cena’, ‘obra de arte’, ‘sujeito’-- e vibrar separações estanques --entre arte e cotidiano, ritualístico e mundano, corpo e cidade, entre cidadãos” (Fabião 129).

A última dessas argumentações, “Das reticências (ponto 7)”, afirma-se na promessa da continuidade da ação “Linha”, no Rio de janeiro, lugar em que Eleonora Fabião voltará a viver. O futuro aqui é incluído no horizonte estético, já que a própria vida-da-artista-em-performance alude às mudanças de lugar, ambiente e convívio. O que se sucederá, portanto,não faz parte deste livro, mas espera-se por um próximo para mobilizar e arejar a nossa atividade intelectual e artística.

Sucedendo a preciosa documentação das ações, a mudança de textura e do papel cor de areia sinalizam os ensaios dos autores convidados, cujas amizades estético-políticas, como Fabião argumenta, ao longo dos anos, têm testemunhado a constância dos “programas” da performer. Nesse contexto, os colaboradores são convidados “a escrever com o trabalho, por meio dele, a partir dele”, como sugerem os organizadores do livro. Estes ensaios, colocados depois das imagens, potencializam o debate desdobrando pontos de vista e conhecimentos envolvidos no “corpo-livro”. A articulação escrita dos corpos, impregnados pelas experiências práticas da artista, atribuem ao conjunto um forte significado.

Nesta perspectiva, supõe-se que a partilha das Ações aproxima os anônimos das ruas dos leitores, autores e colaboradores, considerando as suas variantes corporais, paradoxalmente, reunidas numa posição comum de corpos performativos. Nesse sentido, sobressai-se uma importante questão apontada pelo discurso de Pablo Assumpção B. Costa que “falar de corpo performativo, portanto, é falar de corpo-contágio, um corpo-encontro, um corpo-desmantelo, e os seus efeitos” (260). Pressupondo, portanto, que o ato poético desdobra-se na materialidade dos encontros e perpetua-se em novos sentidos, de modo processual e ativo.

Diana Taylor, por sua vez, argumenta: “É tudo sobre o momento, o agora da performance, a interação, a conexão --por mais precários que sejam. Em outras palavras, sua abordagem em relação à performance poderia ser resumida como: tocar tudo, trocar tudo, não guardar nada”. Taylor tece uma farta discussão em seu ensaio e, entre outros aspectos, ressalta a diferença na abordagem das performances de Eleonora Fabião (“Converso sobre qualquer assunto”) e Marina Abramovic (“A artista está presente”, MOMA, Nova Iorque, 2010), quando visibilizadas a partir do simples ato de sentar numa cadeira. Em comum, ao menos, as duas têm um ato constituído na imobilidade da presença das artistas. Enquanto Abramovic investe no não fazer nada, no silêncio e no olhar cúmplice com cada espectador, em meio a uma multidão de participantes que a assiste, Fabião investe no íntimo, na conversa com qualquer um sobre qualquer coisa. Como acrescenta Taylor, “Fabião inverte a relação de poder entre ela e o público ao se colocar no mesmo nível das pessoas com quem está interagindo” (272).

O que move Fabião a sair sozinha pelas ruas da cidade, a se deitar sobre o chão, de terra ou de pedras é tema do ensaio de Barbara Browning. Ela questiona o que leva a performer a habitar espaços esquecidos da sua terra como praças e ruas, deixando transparecer a “extrema disparidade econômica tão visível à luz do dia, com a justaposição gritante de torres suntuosas e favelas pobres” que à noite “fulguram como constelações douradas” (285). Browning enriquece esta busca, transitando pela arte e música popular brasileiras, desvelando o Brasil-colônia, o Brasil-ditadura militar, Brasil-copa-do-mundo, o Brasil-cultura ímpar. Em “Cartão-postal” (282) Browning reivindica o foco para a artista entre os postais cariocas. Ao reconhecer a riqueza da cultura de um Brasil de “boca banguela”, como na música do conhecido cantor brasileiro Caetano Veloso, que canta sobre o que achou Lévi-Strauss quando viu, pela primeira vez, a baía da Guanabara. Sob as pedras e calçadas do Rio de Janeiro estão os traços da história que a artista não fala, não escreve, nem representa. Nas deambulações pela cidade com Fabião, podemos não “enxergar a beleza da cidade” e, o que é pior, “sem ver no que estamos pisando” (291), diz Browning no anseio de apreender o que leva a performer a deitar-se ao lado da moça nambikwara do livro Tristes Trópicos de Lévi-Strauss; a colorir as pedras do famosos calçadão de pedras portuguesas; a caminhar de olhos vendados sem ver a cidade; ou a atribuir significado àquele que compartilha experiências com a artista --o outro-- central no encontro entre a artista e essa figura emblemática que é o povo brasileiro que o habita.

Adrian Heathfield, cujo percurso teórico-artístico-curatorial transita entre a escrita e a performance, busca conter os vestígios da experiência vivida por ele mesmo: um autor que, como performer-testemunha, busca fazer o leitor incorporar a poética de Fabião. Misturando o olhar do autor com o da performer, Adrian Heathfield segue com “a lógica da subtração dos sentidos para conseguir alcançar um senso mais profundo de existência” (330), trabalhando com a sobreposição de camadas de realidades, que perfuram níveis e bordas, entre as quais proliferam sensações, impressões, temporalidades, espacialidades, topografias, paisagens urbanas, uma percepção das experiências vivenciadas no interior do cotidiano ensolarado e caótico do Rio de Janeiro. Desse modo, ele vai encontrando uma relação pulsante entre o texto e a vida.

Tania Rivera traz importantes questões desdobradas a partir da performance “Linha”, a qual ela considera como a mais emblemática, considerando que os pequenos atos realizados por Eleonora Fabião se dissolvem no convívio com as pessoas, entre ruas e praças ruidosas da grande cidade, cujas falas se inscrevem numa experiência feita, segundo ela, de “sonho, palavra e corpo” (294). Rivera nos lembra a forte filiação de Eleonora Fabião com a artista brasileira Lygia Clark e também, com Hélio Oiticica --dois ícones brasileiros da “tradição” -- das inter-relações com o outro, de uma certa noção de coletivo e da herança antropofágica em suas obras. Na perspectiva de Rivera, “o projeto de ação é, assim, uma espécie de isca para chegar a outra coisa ainda mais importante: aquilo que Fabião chama de ‘circulações afetivas’ (295).” Pode-se pensar, assim, que a relação artística se insere em um campo de afetos que vai além dos laços estabelecidos com quem divide-se as formas familiares de existência. Tornar a matéria do afeto um estado movente das relações entre a vida e a arte significa ainda expandir uma experiência de vida que é quase imperceptível, mas vibrátil, com memórias que emergem e tocam o sujeito no desfrute da sua experiência estética, íntima, e inerentemente, vital.

Felipe Ribeiro pondera que as ações em espaço público são, em referência à Nigel Thrift, um “híbrido de concretudes, disposições e fluxos” (309), reforçando a ideia de “compreender a coisa pública como mistura de corpos e espaços” (309). Tais corpos aparecem, de modo exemplar, nos protestos de junho de 2013, campo de forças em que ele insere as Ações vendo-as como resposta às violências praticadas pelas políticas públicas dominantes. O autor é também um corpo-testemunha que registra e acompanha o desdobrar das ações da artista capturando as imagens que performam o livro. Torna-se, como afirma Ribeiro, uma outra forma de experiência em um estado de mediação-meditativa, já que ele acompanha, discretamente, por horas a fio, as ações de longa duração.

O ensaio de André Lepecki encerra o livro da mesma forma com que ele se coloca nesse processo, “um pouco atrás, mas sempre ao lado” (332). O autor vai construindo o ponto de vista em matéria de espaço e tempo, deixando ecoar, contudo, a afetividade narrativa que as Ações mobilizam. E como elas não se separam da experiência da vida e vão dando forma às palavras e ao contar. Lepecki dedica-se a especular questões de amplitude filosófica que desmontam e redimensionam as condições da arte da performance, descrevendo o papel da receptividade como algo que torna o artista capaz de “receber e dar golpes” (333). Iguais reflexões levam-no a recordar “onde” e “quando” o corpo-de-ação de Eleonora Fabião desenvolveu tais capacidades para a prática das Ações. Expresso num “quem sabe?” (337) Lepecki não hesita em dizer numa espécie de conversa em voz alta com Eleonora, que:

(...) o germe de tudo, a catalisação primeira do que se desdobrará eventualmente num corpo para a ação, num corpo para as Ações, tenha se dado quando aquele filho da puta te deixou agonizando, durante dias, a burrice mesclada com cinismo e arrogância, enquanto apodrecias perante os meus olhos e os olhos da nossa filha, e ficávamos sem ver também --pois não era possível enxergar a morte chegando no momento em que a vida acabava de acontecer” (337).

O autor associa os “nascimentos”, o da menina Valentina, filha dos dois, com o das Ações. A iminência da chegada da vida e o confronto com a finitude trouxeram a corporeidade viva e potente de Fabião com a qual ela transforma em “um ato de partilha” (337). Tudo em um mesmo impulso de coragem e modéstia, qualidades requeridas, segundo Lepecki, para todas as iniciativas ousadas que Eleonora propõe.

A leitura do livro, que não precisa ser linear, vai estimulando o leitor, artista, performer, pesquisador, professor, estudante, a fazer ações e performance --a se mover e mover outros--, assim como a expandir as formas de percepção no encontro da arte com o agora, no esforço de constituir uma experiência “viva” única.Em seu conjunto de acontecimentos nos lembra que, em seus afetos e desafetos, a vida e a performance celebram o estar juntos. Fazer performance para Eleonora Fabião expande-se em múltiplos sentidos, mas acima de tudo vai se concretizando como um projeto de vida. No movimento em que confluem os atos, o livro vai expandindo e tornando perceptíveis as relações que sustentam e representam as escolhas, indissociavelmente, estéticas e políticas das práticas de Fabião. Talvez, nesse sentido, a autora-performer nem explore uma coisa nem outra, mas o que está “entre” os corpos, instaurando assim, uma outra dimensão situada entre o livro e as performances, entre o registro e as reflexões sobre elas, aproximando ainda, de modo inusitado, a prática da teoria.

Estive presente em duas “lectures-performance” de Fabião em ambiente acadêmico, e as múltiplas topografias e temporalidades que ela presentifica no jogo performativo, como hora, local e outras orientações, também aparecem na forma do livro. A localização espacial e temporal são meios de realçar o acontecimento e o “agora” das ações. Nas duas vezes em que participei, o público que lotava a platéia se emocionou não apenas com a fala e a performance, mas com a vibração que irradiava da artista. Fabião dispensa a espetacularidade do ato teatral para situar-se no “entre-lugar dos encontros” onde o sensível afeta as relações humanas mais singulares.

Chegando na reta final desta resenha o livro amarelo-sol já não é mais o mesmo. Não dei, não emprestei, nem passei adiante o livro como a autora sugere na contramão do mercado editorial. Posso dizer, ao fim da leitura, que fui tomada por novas experiências que ainda perduram em minha memória. O livro agora é resquício dessas experiências, meio sujo e enrugado pelo manuseio dos meus dedos de café, entre idas e vindas entre outros inúmeros trabalhos. Agora são apenas sinais deixados nas folhas, marcas do meu anseio em devorar todas as palavras, imagens, detalhes e conexões imperceptíveis que o livro estimula. Situando-se numa espécie de teatralidade do cotidiano Ações é a realidade inexorável dos caminhantes, escritores e leitores, cujos corpos circulam por aí com a intensidade desta experiência que passa por-entre-sobre-com a singularidade da de cada existência.

A circularidade que compreende o livro, frente e atrás (do livro) forma um conjunto cujos traços são perceptíveis nas fotos espelhadas e nas palavras sincronizadas, constituindo as pistas que integram as várias dimensões performativas. A espessura das experiências abraça o espaço, tempo, memória, textura, peso, cores e corpos. No texto da capa amarelo-sol, já se configura a movida performativa de Eleonora, dizendo que o que a interessa na performance é “uma arte da iniciativa” (s/p). E, neste movimento cíclico, depois de todas as percepções avivadas pelo volume e qualidade das performances, nas páginas finais a artista diz que “é preciso repensar a performance como uma teoria da aventura” (s/p), remetendo à imprevisibilidade da criação. Assim se desenha a performance para Eleonora Fabião, como uma iniciativa, uma prática e uma aventura. Esta totalidade que compõe o livro, assim como a forma com que ele foi pensado, em constante transformação, garante o desdobramento das performances “vivas”, cuja apreciação não se limita ao seu desaparecimento visual e presencial, mas permanece de algum modo na memória dos participantes como uma experiência de longa duração. A qualidade que soma, sustenta e dá valor à quantidade de ações é estimulante e pode ser percebida pelo peso do livro, não em quilos, mas em carga de experiências multiplicadoras.

Quando dei por encerrada a minha leitura foi quase por distração que virei o livro e encontrei no seu reverso mais um pequeno ato de Eleonora Fabião. É bastante significativo que as últimas palavras de todo o livro estejam sutilmente colocadas embaixo ou atrás (do livro) de todas as Ações. Tais palavras, com as quais termino a minha resenha, são dirigidas àqueles que sustentam o “peso” do livro e das experiências com as Ações. Mas também àqueles que detêm o poder e esquecem das ruas, das cidades e de seus cidadãos. Cheguei a ouvir os gritos de entusiasmo e paixão de Eleonora: “Salve o povo da rua! Salve o povo na rua!”


Beth Lopes (Elisabeth Silva Lopes) é uma artista, pesquisadora e professora de Graduação e Pós-Graduação em Artes Cênicas na Universidade de São Paulo, na área de Atuação. Desenvolve estudos e publicações de textos acadêmicos centrados na corporalidade, bufonaria, memória, performance e teatro brasileiro. Ela realizou Pós-doutorados na UFSM/RS, e no Departamento de Estudos da Performance, na NYU. Como diretora e fundadora da Companhia de Teatro em Quadrinhos (CTQ) ela é reconhecida pela força cênica no trabalho com o ator e por um teatro singular. Em 2013, ela organizou o 8th Encontro do Instituto Hemisfério de Performance e Política: “Cidade/Corpo/Ação. A Política das Paixões nas Américas”, inaugurando uma parceria internacional entre o Instituto Hemisférico de Performance e Política e a Universidade de São Paulo.


Obras citadas

Certeau, Michel de. 2012. A Invenção do Cotidiano. 1. Artes de fazer. São Paulo: Editora Vozes.

Fabião, Eleonora e André Lepecki (eds.). 2015. Ações Eleonora Fabião. Rio de Janeiro: Itaú Cultural.

Fabião, Eleonora. 2013. Programa performativo: o corpo-em-experiência. In: ILINX Revista do Lume.

http://gongo.nics.unicamp.br/revistadigital/index.php/lume/article/viewFile/276/256.

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