Um corpo onde são precariamente atados aparatos técnicos[1]

Nos seios, mouses. No estômago, uma placa-mãe. Na boca, portas de conexão. Na vagina, um mouse. Na cabeça, um chapéu de feltro. No colo, palavras escritas em batom vermelho. E, desfazendo signos identitários, uma máscara perfaz dois olhos. Há a repetição do pênis, no mouse. Há a repetição da boca, na placa de conexão. Há a repetição do estômago, na placa-mãe. Há a repetição dos seios, nos mouses. Há a repetição da face, na máscara. E aqui, a repetição é aquilo que se opõe à representação, não à diferença.[2]

Na repetição, perfaz-se um sintagma composto pela disposição dos prefixos meta, sub, ciber e trans na qual o primeiro desloca os demais da sua função literal.[3] Esquiva-se à lógica de classificação por oposições, à necessidade de conexão.

Metasubcibertrans por Karla Brunet
Ilustração 1 - Metasubcibertrans por Karla Brunet.

Metasubcibertrans por Fabiane Borges

Ilustração 2 - Metasubcibertrans por Fabiane Borges.

Performance Ciberpsicomagia por Fabiane Borges

Ilustração 3 - Performance Ciberpsicomagia por Fabiane Borges

Performance Ciberpsicomagia por Fabiane Borges

Ilustração 4 - Performance Ciberpsicomagia por Fabiane Borges.

Deparamo-nos com um dispositivo sócio-técnico feito com peças e cabos que não conectam. A força da performance não está no aprimoramento das potencialidades da interatividade ou da simbiose entre corpo e máquina – os aparatos são obsoletos. Da precariedade, inscrita na adoção do prefixo sub, emerge grande parte da potencia da performance. Sonha a metasubcibertrans com computadores vestíveis ligados a outros tantos dispositivos? Os fios – repitamos - não conectam. Alguns aparatos estão, inclusive, amarelados pelo tempo. Teria a metasubcibertrans fugido de um sonho tecnológico não concretizado?[4]

No híbrido, se entrevêem os seios. A visão do contorno das pernas faz do sexo potência de criação e de relação. Sexo também obsoleto frente ao instável arranjo atado com fita adesiva. Divisa-se uma metaficcção que questiona os limites do sexo como marcador identitário e da rede de comunicação como utopia civilizatória. Desta vez, a inscrição se dá no prefixo ciber e, como indagam as integrantes do g2g,[5] grupo do qual faz parte a performer – o ciberfeminismo teria chegado à América Latina? Em nosso contexto, o tropo cyborgue funciona para a desconstrução de dicotomias sexo/genero e relações de poder de base tecnológica?[6]

Os aparatos técnicos não compõem um exoesqueleto nem são introduzidos na espessura da carne. A performance se dá na superfície da pele. A voz está retida pelas portas de conexão cujos cabos envolvem o pescoço e instalam constrições de movimento. O dispositivo que conecta é o mesmo que depõe acerca da insuficiência no uso das redes de comunicação. O mouse se interpõe à vulva. O que se necessita não é uma nova parte do corpo, para dizer de algum modo, mas deslocar o simbólico hegemônico da diferença sexual (heterossexual) e oferecer em perspectiva crítica, esquemas imaginários alternativos que permitam constituir espaços de prazer erógeno.[7]

Como na Minoutaire de Dali,[8] o corpo trans figura-se ao desfazer os contornos nítidos entre feminino e masculino, entre humano, animal e máquina. Sonha-se a metasubcibertrans um cyborg? Mouses se interpõem aos seios e duas crianças são apoiadas em seus braços - posam para a câmera.

Atada por fios e cabos, a performer não se interliga a outro dispositivo – a sustentação dos aparatos está no corpo. Nos cabos que saem das portas analógicas não correm feixes de informação. Performance e política se entrelaçam num corpo que se situa às margens dos fluxos tecnológicos de comunicação. Sonha a metasubcibertrans com feixes de informações binárias percorrendo os cabos que a atam? Tem-se um corpo open source, aberto, instável.[9]

A criatura não agoniza, sorri fixamente – linha horizontal estirada na face. É instalada uma figuração ritual. A junção imperfeita entre corpo e aparatos delineia um gesto fágico.

Na performance Ciberpsicomagia,[10] a fita que atava a boca da criatura, desaparece. Abre-se espaço para uma fala lacônica que oscila entre a lucidez e o delírio. Códigos binários interrompem os fluxos de voz. Victoria Synclair entrevista a Metasubcibertrans que, desta feita, já não mais apresenta aparatos técnicos. Permanece a máscara na qual se entrevê apenas a boca, descargas elétricas perfazem sons codificáveis:

Miserável e divina criatura. Povo yanomami[11] me tocava muito delicadamente. Abriram minha placa mãe. Aprenderam sobre os critérios da evolução. Meu corpo era um objeto experimental. Para eles entenderem porque não acreditamos em evolução[12] (Borges, F, 2008).

Espíritos indígenas passam a povoá-la. Em performance anterior, a artista já havia invocado os índios guaranis kaiowás de Mato Grosso, que, na ausência de alternativas dignas de vida, cometem suicídio ritual. São estes índios que a abrem e perscrutam a placa mãe atada à pélvis.

O corpo híbrido se converte em objeto experimental. Com o que sonham os índios que a abrem? Tocam-na, delicadamente, num gesto desencantado – do experimento. Uma vez sonhados, os índios são incorporados ao laboratório estendido da artista – tecnomagos que atuam nas interfaces maquínicas e oníricas (Synclair, V., 2008).

A carcaça do computador se mistura ao visco dos alimentos. Obsoleta, perecível. Passamos um outro agenciamento - índios, alimentos e carcaças.[13]

A criatura agoniza. Não existem mais fios. Não existem mais cabos. Existe apenas o imperativo da conexão – fluxos maquínicos e espirituais a atravessam. Fios, cabos e vestes são expostos sem o suporte corpóreo. Opera-se a autonomização dos aparatos em relação à ordem corpórea.

Assim, como os animais mortos para abate, a metasubcibertrans tem sua pele esticada no curtume.

Malhas, Fios, cabos e fluxos são atados em alegoria. Agora retiram de mim a cobertura de carne, escorrem todo o sangue, afinam os ossos em fios luminosos e aí estou (...) parecida comigo. Um rascunho.[14]


Dolores Galindo has a PhD in Social Psychology from Pontíficia Universidade Católica de São Paulo (2006), and currently works as professor at the Universidade Federal do Mato Grosso and researcher at Discursive Practices and Sense Production (PUCSP). Her research interests include body, performativity and “copyleft.” She is also actively engaged in the collective g2g – gender and technology (www.interfaceg2g.org). Her current research focuses on body transformations in Brazilian transgenders.


Notas

 [1] Entre os dias 07 e 11 de dezembro, em Lençóis, no interior baiano, ocorreu a terceira edição do evento Submidialogia: a arte de re:volver os logos do conhecimento pelas práticas e desorientar as práticas pela imersão no subconhecimento. Trata-se de um encontro imersivo que agregou artistas, ativistas e intelectuais. A metodologia de organização se divide em três linhas de ação: o convívio, a realização de integrações multimídia e a montagem de intervenções públicas. Na edição de 2007, diferentemente das anteriores, houve uma invasão feminina (Wells, T. 2008). É sobre uma destas performances que se debruça o presente texto.

 [2] Idéia trabalhada em Deleuze e retomada por Peter Paul Pebart (2003), p. 229.

 [3] Efeito semelhante de deslocamento é explorado nas performances drag king (Hanson, J., 2007)

 [4] Fugido, como o fez, a criatura desenvolvida pelo Dr. Frankenstein, na novela de Mary Shelley?

 [5] g2g é um grupo composto por mulheres cujo trabalho se volta para o uso de tecnologias de software livre. Referências sobre o grupo podem ser encontradas no site www.interfaceg2g.org.

 [6] Sobre o questionamento do tropo ciborgue como metáfora contemporânea para a desconstrução de dicotomias, ver texto Sobre os Ciborgues como figuras de borda (Galindo, 2003).

 [7] Butler, Judith (2002), p. 142.

 [8] Imagem híbrida entre La Minotaure (1936) e Metasubcibertrans (2007, 2008) pode ser encontrada no site http://www.degradarte.org.

 [9] As imagens divulgadas pela artista foram trabalhadas em softwares de código aberto. Para performance em vídeo, consultar: youtube.com/rss/tag/+metareciclagem.rss.

 [10] Performance realizada na Casa das Bananeiras, no Rio de Janeiro, em 2008.

 [11] Sobre a performance Suicídio Guarani, consultar: diplo.uol.com.br/2008-02,a2168.

 [12] Depoimento em vídeo, transcrição cedida pela artista.

 [13] Sobre corpos sem órgãos (Deleuze, 2002).

 [14]Trecho de poema narrado pela cantora Elis Regina durante o seu último show intitulado Trem Azul.


Obras Citadas

Borges, F. Fala da Metasubcibertrans. Disponível em www.cassandras.blogspot.com. Acessado em 12/03/2008.

Butler, J. 2002. "Identificiación fantasmática y la asunción del sexo". Em: Cuerpos que importam: sobre los límites materiales y discursivos del ‘sexo’. Buenos Aires, Paidós.

Deleuze, G. 1987. "Como hacerse um cuerpos in órganos?" Em: Mil Mesetas: capitalismo y esquizofrenia. Espanha, Pré-textos.

Galindo, Dolores. 2003. "Sobre os ciborgues como figuras de borda". Athenea Digital. nº 4.

Hanson, Julie Drag Kinging. 2007 "Embodied Acts and Acts of Embodiment". Body & Society, Vol. 13, No. 1, 61–106.

Haraway, Donna. 1991. Ciência, Cyborgs y mujeres: La reinvencion de la naturaleza.Madrid, Ediciones Catedra.

Pelbart, Pelbart. 2003. "Música e Repetição". Em: Vida Capital: Ensaios de biopolítica.São Paulo, Iluminuras.

Synclair, Vitoria. Entrevista com a Metasubcibertrans. Disponível em: www.cassandras.blogspot.com. Acessado em 12/03/2008.

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