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Bicho-folharal-urbano: os “Experimentos Gramíneos” de Maicyra Leão

Isis Costa McElroy | Arizona State University

Abstract: Maicyra Leão’s Grassy Experiments is contrasted to the Brazilian rural performance of Bicho-Folharal (Leafy-Creature), a worker bee in which the community gathers to assist one of its members to clear a piece of land. When the land is cleared the Bicho-Folharal emerges as a character dressed in dry leaves and a wig made with fiber. The children come out to receive and tease the Bicho-Folharal while the workers chase him away with their hoes. The orature concerning the Bicho-Folharal refers to a narrative in which the jaguar organized all the animals to drill a well. The rabbit did not join the workers and was thus not allowed to drink from the well. In order have access to water, the rabbit smeared its body in honey and rolled over dry leaves disguising and transforming itself into the Leafy-Creature. The reference to this traditional rural performance is used as matrix to explore Maicyra Leão’s performance in the urban context of Buenos Aires.

Ao estudar o programa do “Corpolíticas nas Américas”, circulei os eventos que me interessavam. Alguns, eu marcava com estrelas (“tenho que ver”), outros com flechas (“tentarei ver”) e os últimos com pontos de interrogação. “Experimentos Gramíneos” de Maicyra Leão marquei com uma estrela. O título e a descrição do evento me atraíram: “Vestida com uma roupa construída a partir de pedaços de grama artificial, a performer coloca-se deitada num pequeno gramado próximo a uma área de grande circulação e desloca-se pelo centro da cidade”. A grama sempre me seduziu. Deitar na grama, rolar na grama, pé descalço na grama verdinha. Grama do quintal da minha infância (dizia que nunca morreria, que viraria grama). Grama urbana: pasto para a vista (mar verde), pasto para o olfato (cheiro de grama cortada molhada), pasto controlado (proibido pisar na grama).

O fascínio pela grama já foi objeto de estudo. De acordo com a Teoria da Savana, desenvolvida pelo ecologista John Falk, a grama do cerrado da savana presente na nossa infância evolucionária propiciava um espaço seguro em que predadores poderiam ser facilmente identificados. John Falk propôs que a nossa atração pela grama estaria embutida no nosso DNA. Talvez algo na nossa memória milenar genética nos remeta a um referencial de significado compartilhado, a uma sensação de segurança ao ver um espaço uniforme coberto por grama: um espaço legível, aberto, estável. Apesar de não poder discutir a validade ou absurdo científico da teoria da savana, é uma idéia que vez por outra me passa pela cabeça, principalmente quando observo o incansável esforço dos meus vizinhos em manterem seus gramados meticulosamente cuidados. Esse esforço individual soberano de controlar e moldar a natureza parece mais obsessivo nos Estados Unidos do que no Brasil. Quando vivia no Brasil imaginava a grama como um ser auto-suficiente, um gato do mundo vegetal que não necessitava de atenção excessiva.

No dia 14 de junho peguei o metrô para a Plaza del Congreso de onde, de algum pequeno gramado, surgiria Maicyra Leão camuflada em sua roupa de Bicho-Folharal urbano. Era o começo de uma noite fria, 4.6 graus, horário de rush na cidade que me lembra São Paulo e Nova Iorque. A descrição da performance de Maicyra Leão me remetiam à associações rurais, ao Chibamba, ao João do Mato, ao Bicho-Folharal: espantalhos performáticos das festas de capina comunitária do interior de Minas Gerais, São Paulo, Espírito Santo e do Reisado em Alagoas. Esses personagens vestidos de folhas secas de capim, bananeira e samambaia, simbolizam o mundo vegetal descontrolado e independente, o mato destruidor das roças que deve ser periodicamente eliminado. Mas não estávamos numa roça no interior de Minas Gerais e sim na Plaza del Congreso cruzada por centenas de pessoas voltando do trabalho em passos rápidos movidos por pressa e frio.

Maicyra Leão em Experimentos gramíneos.

Foto: Zeca Ligiéro.

Em um canteiro Maicyra Leão observa o movimento da praça por outro ângulo e prisma identitário: “Muitas pernas se movem. Num canto, num meio, onde ainda resta um pouco de grama convivendo com o cimento, repouso o meu corpo. Não um corpo nu, mas um corpo provido de uma camada de grama. Como se a própria coisa-verde contornasse membros, tronco e cabeça. Sem rosto. Não mais identidade. Um corpo vestido de grama camuflado por entre as formigas, a terra, e as pernas”. E lentamente a criatura grama se ergue, como rompendo e se desprendendo da terra: “Aos poucos as pernas se transformam em rostos. Uma suspensão. Incompreensão. Uma falta de referência. Um corpo estranho num território conhecido”. Diferente dos espantalhos vegetais das performances rurais brasileiras essa criatura não vem dançando, não é recebida por cantadores capinadores, nem crianças que a reconhecem em medo excitado de brincadeira protegida. A criatura grama urbana move-se com alguma dificuldade, como se custasse pisar no chão de asfalto. Algo nos faz pensar num cazumbi, num fantasma que vaga pelo mundo dos vivos com alguma hesitação. Incongruente e um tanto ameaçador, o corpo seguro e tranqüilizante da grama urbana se transmuta de legível e confortante em enigmático e alheio. A criatura grama urbana é imune aos capinadores humanos ou mecânicos, não domesticada pela urbanicidade nem codificada pela poesia rural da roça, ela transgride o terreno de significados compartilhados.

De um gramado, a criatura grama começa a vagar pela praça munida de um regador de plástico verde e de uma máscara de gás, protegida assim de ataques biológicos ou químicos, de secas ou falta de cuidados humanos. Chegando ao centro da praça a criatura se rega para daí abandonar a praça, cruzar a Avenida Callao e desaparecer na multidão da Rivadavia. Da savana à metrópole, presenciamos a figura de um ser auto-suficiente, indestrutível e adaptado ao meio urbano.

Essa é a terceira vez que Maicyra Leão apresenta “Experimentos Gramíneos”, performance que integra seu trabalho de exploração do corpo como centro promotor de estranhamento em meio à atividade cotidiana urbana. Em 2006 ela levou a criatura grama ao Rio de Janeiro e Recife. A máscara de gás só foi usada em Buenos Aires. De acordo com Maicyra Leão: “Optei por usar a máscara em Buenos Aires apenas. Uma inspiração pelo país mesmo. Pelo frio, pelo contágio, pela tortura, pelo trauma...” A performer se precaveu de antemão com um filtro simbólico para protegê-la do frio inóspito, das vibrações estrangeiras, dos fantasmas coletivos e individuais de uma cidade deitada eternamente em divã-psicoanalítico esplêndido.

Em sua persona vegetal não reconheci a mulher de Aracaju habitante do cerrado de Brasília com quem alguns dias antes havia bebido no Galpón de Catalinas no Bixiga portenho. Foi na Boca que desprovida de sua indumentária vegetal, Maicyra à paisana me ofereceu uma garrafinha de água. Regador humano. O aroma e sabor do líquido transparente foram uma novidade mágica. Sabia de imediato tratar-se de um elixir. “Fernet Branca”, ela me explicou. Uma garrafada ítalo-argentina alle erbe aromatiche. A panacéia da infusão de ervas aromáticas nos aqueceu naquela noite fria e me pareceu perfeita a descoberta da Boca através do filtro herbal etílico que é uma metonímia cultural da urbanização daquele bairro. Ainda não sabia que quem me apresentava à beberagem era a performer que sintetizaria outro aspecto da interação urbana entre bípedes com polegar opositor e gramíneos clorofílicos rizomáticos. Mirra, ruibarbo, camomila, cardamomo, babosa, açafrão, uva branca, e ervas secretas.  Grama-da-guiné, grama-batatais, grama-bermudas, grama-braquiarinha e grama-maicyraleão.

Maicyra Leão em Experimentos gramíneos.

Foto: Julio Pantoja.

Segui a criatura grama pela multidão da Rivadavia. Queria ver a interação com o público fora da Plaza del Congreso onde havia uma maioria de performáticos e intelectuais preparado para aquela aparição. A criatura gama pingava deixando um rastro de água pela calçada. A performer com os pés descalços pisava no chão frio de Buenos Aires e eu não podia deixar de pensar que quem quer que estivesse por debaixo da coberta de grama artificial, máscara de gás ou não, deveria estar a um passo de terminar num pronto-socorro. Pela Rivadavia a criatura grama se movia mais rapidamente. O caminho era aberto por transeuntes que apesar da pressa paravam para olhar e tentar decifrar a imagem inusitada. Deixavam passar o verde bípede pelo mar humano que logo se fechava impelindo-o para longe do canteiro original. A multidão compacta foi me separando da criatura grama até perdê-la de vista. Mais tarde encontrei Maicyra Leão numa confiteria protegida por um macacão de moletom cinza tentando comunicar à garçonete impassível e indiferente sua necessidade de ser alimentada com urgência. Não era mais a personagem auto-suficiente munida de alimento, camuflagem vegetal perfeita, e filtro respiratório, mas uma pessoa como todos nós que visitávamos Buenos Aires, despreparados para o frio, expostos ao vírus da gripe que assolava a cidade e dependendo de nossos recursos lingüísticos para satisfazer nossas necessidades de comida e arte.

Ela chegou ao Brasil nos anos 70. Convidada honorária da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária. Maicyra? Não. Falo da grama Brachiaria. Braquiarinha para os íntimos. Nascida na savana africana, espalhada pelo mundo para conquistar espaços hospitaleiros ou inóspitos, ela foi dominando outras espécies, adaptando-se e sobrevivendo. Extremamente resistente às secas é uma grama praticamente imortal. Mas a braquiarinha é uma anti-social ecologicamente-incorreta: ela não consegue conviver com outras plantas. Suas longas raízes ambiciosas e carentes sugam toda a água e sufocam outros seres gramíneos. Em sua guerra química subterrânea, a braquiarinha faz com que outras gramíneas definhem, até que sobre somente ela, despoticamente soberana. Coincidência humana? Caráter metropolitano? Grama tem caráter?

Maicyra Leão em Experimentos gramíneos.

Foto: Julio Pantoja.

E aqui, de volta de Buenos Aires, no sertão americano de Phoenix, penso em “Experimentos Gramíneos” e em Maicyra Leão candanga do sertão nordestino. Olho pela janela e vejo os esforços dos meus vizinhos na irrigação e manutenção dessa espécie exótica numa região desértica e árida. Penso no absurdo da obsessão humana pela grama. Penso nas gramas resistentes à estiagem e tráfego plantadas em jardins públicos. Penso em Brasília, espaço moldado e “inventado” pela Novacap (Companhia Urbanizadora da Nova Capital), empresa criada por Juscelino Kubitschek em 1956, que ainda hoje é responsável pela urbanização e pelo ajardinamento da extensa área gramada de Brasília. Penso na grama batatais candanga que independente da intervenção humana e da Novacap colonizou o cerrado do Planalto Central. Penso na soberania da grama, na braquiarinha gananciosa, na batatais autônoma, no Bicho-Folharal indestrutível. Penso nos rizomas de muitas bocas e seivas da cultura das Américas. Penso em gramas colonizáveis e colonizadoras, na provável solidão e liberdade da braquiarinha sem compromissos morais ou com excessivo desejo de se espalhar e se relacionar detonando um genocídio gramíneo inevitável. Penso no ser urbano.

Era uma vez um gato xadrez? Pois bem: era uma vez uma onça e um coelho numa terra seca e árida. A onça chamou todos os animais para que juntos cavassem uma cacimba. O único animal que se recusou a trabalhar foi o coelho que ficou assim proibido de beber a água do poço coletivo. Quando o coelho sentiu sede, ele untou seu corpo de mel, rolou por folhas secas e foi ao poço guardado pela onça. “E que bicho é você que não conheço nem nunca vi?” perguntou a onça. “Ora essa!” – respondeu o coelho – “Muito me admira o seu desconhecimento. Sou o Bicho-Folharal, é claro”.

O Bicho-Folharal urbano de Maicyra Leão, como o coelho dos folguedos rurais brasileiros, é um ser que se desprende de seu contexto e condição, para que reinventado em bípede antropomórfico vegetal encontre água. O Bicho-Folharal simboliza um ser parasita daninho a ser eliminado. Com a consciência de que esse não pode ser exterminado ele é simbolicamente controlado, apaziguado e celebrado. O Bicho-Grama de Maicyra Leão simboliza o estranhamento do familiar: a grama urbana limitada pelo concreto, fiscalizada e cuidada (ou não) pela prefeitura, a grama que muitas vezes passa desapercebida na correria do dia-a-dia. Esse espaço familiar, que como quase tudo que nos é familiar, está imbuído de significados, referências e carências – entidades simbólicas que tomamos por certo, que subjugamos e sujeitamos à nossos desejos transitórios de beleza tranqüila e reconhecimento (desejo talvez embutido na nossa memória genética como quer John Falk). E esse espaço subjugado se levanta, alcança o nível dos olhos dos transeuntes. Sem ser celebrado ou recebido como visita esperada, causa estranhamento. E como qualquer ser urbano move-se a partir de seu desejo individual. A meta: água. Líquido nutritivo de subsistência que não carece de interação comunitária para ser conseguido; o Bicho-Grama já traz sua água, não precisa de humanos, nem garçonetes indiferentes. A interação com humanos não é nem necessária nem aparentemente desejada. A máscara de gás e o regador indicam: para me locomover entre vocês preciso de um filtro e provisão – o ar que vocês inspiram e expiram é tóxico, estou entre vocês, me espalho por onde quiser, e não peço nem aceito seu oxigênio, nitrogênio ou hidrogênio. Grama senhora de si e solitária como a braquiária. Anônima como qualquer transeunte. Fechada em seu universo como qualquer ser urbano. E deixando por onde passa trilhas de água como a querer impulsionar a expansão de sua espécie, a criação de outros seres semelhantes com quem possa dividir ar, água e afeto.

Nas performances brasileiras o Bicho-Folharal recebe uma “prenda de ouro”, uma garrafa de cachaça enfeitada. Se soubesse de antemão do que se trataria a performance de Maicyra Leão em Buenos Aires, teria lhe levado uma garrafa de Fernet branca enfeitada. Mas as performances urbanas individuais quase nunca são cíclicas e não sabemos de qual próximo canteiro público de qual metrópole se desprenderá de novo o bicho-grama-maicyra.


Isis Costa McElroy is an Assistant Professor of Afro-Brazilian Literatures and Culture at Arizona State University. She is a poet/scholar/teacher whose work has focused on the language and philosophies of the African diaspora as expressed through literature, popular music, oral history, sacred and secular manifestations and rituals.

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