Esta peça, criada durante o movimento Diretas Já, que pleiteou eleições diretas no Brasil, é uma parábola do momento político que o país estava enfrentando. Ela conta a estória de um casal de velhinhos que tinha vivido na mesma casa durante os últimos vinte anos e de como a casa foi-se deteriorando dia após dia. O casal encorpora a classe média conservadora que apoiou o golpe militar de 1964, mas que, duas décadas depois, perdeu os seus privilégios e foi às ruas para lutar por Diretas Já. Entrelaçada com estórias paralelas – um casal que está sendo despejado, uma cena de tortura e o julgamento de um policial – a audiência vê a casa literalmente cair aos pedaços diante deles. Na cena final, quando o candidato à presidência chega, uma mão gigante aparece para lhe entregar a faixa presidencial e o prédio desmorona com estilhaços, vazamentos e poeira.

quarta-feira, 15 setembro 2010 19:15

A saga de Canudos (2000)

Por meio de máscaras e marionetes, música e dança, A saga de Canudos conta a estória da construção e da destruição da cidade de Canudos em uma das guerras civis mais mortíferas que o Brasil já viu. A performance recupera os aspectos políticos do movimento liderado por Antônio Conselheiro no século XIX. Assolados pela fome e pela opressão, milhares de sertanejos reuniram-se em torno dessa figura legendária. A terra, os rebanhos, as ferramentas, tudo era propriedade coletiva, as tarefas eram distribuídas de acordo com a capacidade de cada um e as decisões eram tomadas coletivamente, em encontros diários. O seu lema, porém — “A terra não tem dono. A terra pertence a todos” — foi considerado um desafio direto aos proprietários de terra, ao governo e à igreja. A historiografia oficial pintou Antônio Conselheiro como um fanático, mas esta peça o apresenta como um homem consciente do seu papel histórico, um homem que lutou contra a escravidão e contra o monopólio da terra, que desafiou a igreja e o governo e que liderou os camponeses a derrotar o Exército Nacional diversas vezes.