Perfis de artistas
quarta-feira, 15 setembro 2010 20:38

Ostal — Rito teatral (1987)

Em Ostal, a audiência de apenas vinte pessoas é conduzida através de um túnel escuro por um médico, um por um, ao quarto de um paciente, quase completamente ocupado por uma cama enorme. Quando entra o último membro da audiência, o médico tranca a porta. A performance ocorre nesse quarto fechado, fragmentos da vida de uma mulher atormentada pela doença mental. A sua esquizofrenia é retratada não como uma enfermidade clínica, uma doença, mas como uma inevitável consequência do processo de adaptação social a que todos nós estamos sujeitos desde a infância. Em busca da sua identidade, ela busca cumplicidade por parte da audiência, enquanto todo o tipo de eventos estranhos e violentos acontecem com ela e com o quarto, sem que nenhuma palavra seja dita.

quarta-feira, 15 setembro 2010 20:05

Independência ou morte! (1995)

Tomando emprestada da história a famosa frase usada por Dom Pedro I para declarar a independência do Brasil, “Indepêndencia ou morte!”, o Ói Nóis cria uma nova versão não-oficial da formação da sociedade brasileira. O propósito é desmistificar os chamados “herois” e pôr no seu devido lugar a verdadeira força de trabalho e cultura deste país. A invasão das terras dos americanos nativos e a expatriação e escravização dos povos africanos servem como estrutura narrativa, exemplificando a opressão e a pobreza em que a maioria dos brasileiros ainda vive. O tom bem-humorado e irônico com que os “herois” oficiais são tratados areja um pouco o modo embolorado em que a história deste país tem sido contada, enaltecendo os nomes de alguns e negligenciando o resto.

De 2000 a 2007, o Teat(r)o Oficina Uzyna Uzona trabalhou na encenação de ‘Os Sertões’, o livro épico de Euclides da Cunha que descreve a Guerra de Canudos do século XIX no sertão brasileiro, liderado por Antônio Conselheiro. O resultado final foi uma pentalogia, formada pelas peças ‘A Terra’ (2002), ‘O Homem I’ (2003), ‘O Homem II’ (2003), ‘A Luta I’ (2005) e ‘A Luta II’ (2006), totalizando 27 horas de teatro. ‘Os Sertões’ relata os episódios da Guerra à luz da história passada e presente do Brasil e em relação à batalha do grupo contra o magnata da mídia Sílvio Santos, que queria derrubar o teatro histórico.

Dedicada a "todo o poder do Des-massacre da Arte e aos efeitos do poder Trans-Humano da Multidão", a teatralização da última parte do livro fala da quarta e última expedição pelo Exército Nacional Brasileiro ao sertão nordestino, com a mobilização de 12 mil soldados, canhões e armas modernas, além de modernos estrategistas como o Marechal Bittencourt, que, pela primeira vez na história do Exército Brasileiro, estabeleceu uma base operacional distante da frente de combate, de onde ele comandou as manobras chefiadas pelo General Artur Oscar e secundadas pelo sanguinário General Barbosa, que foi executado. A peça mostra o fim da Guerra de Canudos, que resultou no massacre dos sertanejos, na morte do próprio Antônio Conselheiro (que foi encontrar-se com Deus) e na destruição da cidadela. No Teatro Oficina, o massacre é encenado não como uma missa de repetição do martírio, mas a partir da perspectiva de um des-massacre. Ao expor esse abcesso fechado da História do Brasil na Praça Pública do Teatro, pretende-se lancetá-lo de uma vez por todas, expurgar isso da prática diária da vida brasileira. Canudos não rendeu-se, e Euclides da Cunha encerra o seu livro lembrando-nos que não trata-se de defesa, mas de ataque.


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terça-feira, 13 julho 2010 14:32

Os Sertões: A luta 1 (2005)

De 2000 a 2007, o Teat(r)o Oficina Uzyna Uzona trabalhou na encenação de ‘Os Sertões’, o livro épico de Euclides da Cunha que descreve a Guerra de Canudos do século XIX no sertão brasileiro, liderado por Antônio Conselheiro. O resultado final foi uma pentalogia, formada pelas peças ‘A Terra’ (2002), ‘O Homem I’ (2003), ‘O Homem II’ (2003), ‘A Luta I’ (2005) e ‘A Luta II’ (2006), totalizando 27 horas de teatro. ‘Os Sertões’ relata os episódios da Guerra à luz da história passada e presente do Brasil e em relação à batalha do grupo contra o magnata da mídia Sílvio Santos, que queria derrubar o teatro histórico.

Dedicada "ao poeta Oswald de Andrade e ao empresário, animador e ator Sílvio Santos", a terceira parte do livro conta o incidente causador da guerra, quando um juíz de Juazeiro embarga uma remessa de madeira, que já tinha sido paga e que seria entregue para a construção da Igreja Nova de Canudos. Três expedições são enviadas pelo Exército Nacional e derrotadas, a última delas comandada pelo famoso Coronel Moreira César. O Exército foi submetido à humilhação de ter soldados desertando e fugindo e de ter o corpo do Coronel Tamarindo empalado. Ele acabou sendo o personagem principal de uma instalação macabra na estrada para Canudos, criada pelos Jagunços e pelas Mandrágoras para intimidar novas expedições. O primeiro movimento de A Luta é escrito em versos de cordel. A Luta I também amplia o espaço cênico, com casas trincheiras da invencível Canudos, que efetivamente formam uma coluna vertebral na pista, e os espaços aéreos dos mutãs, esconderijos usados pelos índios nos galhos superiores das árvores para a caça do jaguar, que os seguidores de Antônio Conselheiro reinventaram. Lirinha, um músico da banda pernambucana Cordel do Fogo Encantado, trouxe a sua paixão por sonoplastia, gravando sons do próprio teatro e transformando-os em tiros, artilharia, criando através da música a vanguarda da luta. O espaço físico da performance é estendida para o mundo, com imagens gravadas, sampleadas, bordadas nas ruas ao redor do teatro, nos camarins, nos locais escondidos da visão direta da audiência, fazendo cinema ao vivo.


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De 2000 a 2007, o Teat(r)o Oficina Uzyna Uzona trabalhou na encenação de ‘Os Sertões’, o livro épico de Euclides da Cunha que descreve a Guerra de Canudos do século XIX no sertão brasileiro, liderado por Antônio Conselheiro. O resultado final foi uma pentalogia, formada pelas peças ‘A Terra’ (2002), ‘O Homem I’ (2003), ‘O Homem II’ (2003), ‘A Luta I’ (2005) e ‘A Luta II’ (2006), totalizando 27 horas de teatro. ‘Os Sertões’ relata os episódios da Guerra à luz da história passada e presente do Brasil e em relação à batalha do grupo contra o magnata da mídia Sílvio Santos, que queria derrubar o teatro histórico.

Dedicado à "criação de uma atitude heróica e anti-heróica daqueles que vão à Guerra e dizem: Adeus, Homem!", a teatralização do segundo movimento da segunda parte de Os Sertões apresenta a passagem do homem re-voltado para o trans-homem, criador de uma possibilidade alternativa para a aventura humana na Terra. A partir da estória de Antônio Conselheiro, todo o teatro revive a sua morte seminal: um homem comum que, por amor, transforma-se em um líder anti-messiânico, arregimentando uma legião de sertanejos – como raízes de solidariedade no interior da Bahia – que, em mutirão, ergueu açudes, igrejas e cemitérios. A comunidade chegou a contar com 25 mil habitantes, sendo na época a segunda maior cidade da Bahia. Os Frades Capuchinhos tentaram dispersar o povo de Canudos "diplomaticamnte". A sua recusa em obedecer a ordem oficial religiosa leva o Frei Evangelista a amaldiçoar os seguidores de Antônio Conselheiro em nome de Jesus. A Cidade prepara-se para a guerra.


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De 2000 a 2007, o Teat(r)o Oficina Uzyna Uzona trabalhou na encenação de ‘Os Sertões’, o livro épico de Euclides da Cunha que descreve a Guerra de Canudos do século XIX no sertão brasileiro, liderado por Antônio Conselheiro. O resultado final foi uma pentalogia, formada pelas peças ‘A Terra’ (2002), ‘O Homem I’ (2003), ‘O Homem II’ (2003), ‘A Luta I’ (2005) e ‘A Luta II’ (2006), totalizando 27 horas de teatro. ‘Os Sertões’ relata os episódios da Guerra à luz da história passada e presente do Brasil e em relação à batalha do grupo contra o magnata da mídia Sílvio Santos, que queria derrubar o teatro histórico.

Para se entender a alma do sertanejo—o que levaria a natureza desse homem a resistir até o último dia em Canudos—Euclides da Cunha relembra em seu livro a formação da sociedade brasileira, a sua origem telúrica, animal e tupi. A segunda parte do livro (e a segunda peça, ‘O Homem I’), é sobre o vigoroso abraço do vencedor, o colonizador europeu céltico, copulando com o derrotado, com os escravos dos navios, formando o tipo "brasileiro-sem-tipo". Misturas de todas as espécies têm espaço no palco, na surpreendente miscigenação já presente no elenco e na equipe do próprio Teatro Oficina. É a estória do Homem Brasileiro, do Homem do País de fora cruzando com o País de dentro, até a Revolta contra a própria noção—imposta e importada—de homem, com o aparecimento de Zaratustra Antônio Conselheiro.


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terça-feira, 13 julho 2010 14:22

Os Sertões: A Terra (2002)

De 2000 a 2007, o Teat(r)o Oficina Uzyna Uzona trabalhou na encenação de ‘Os Sertões’, o livro épico de Euclides da Cunha que descreve a Guerra de Canudos do século XIX no sertão brasileiro, liderado por Antônio Conselheiro. O resultado final foi uma pentalogia, formada pelas peças ‘A Terra’ (2002), ‘O Homem I’ (2003), ‘O Homem II’ (2003), ‘A Luta I’ (2005) e ‘A Luta II’ (2006), totalizando 27 horas de teatro. ‘Os Sertões’ relata os episódios da Guerra à luz da história passada e presente do Brasil e em relação à batalha do grupo contra o magnata da mídia Sílvio Santos, que queria derrubar o teatro histórico.

Em ‘A Terra’, o primeiro impacto é a geografia do sertão. Euclides da Cunha descreve cada parte do sertão na primeira parte deste livro, revelando ao leitor uma radiografia da região. Na peça, uma ópera carnavalesca, um épico musical brasileiro, os atores são a terra, a vegetação, o vento, os animais, os rios, a seca. Isto revela os segredos mais íntimos da natureza, que também vibram nas artérias humanas e trans-humanas. Quando esta obra retorna como overture musical de toda a pentalogia, enriquecida pela experiência que as obras subsequentes trouxeram aos criadores e à audiência, ela ganha uma visão atualizada da interferência humana no seu meio ambiente. O poder destrutivo, proporcional ao poder financeiro, coloca em pauta a discussão acerca do modo pelo qual o espaço é ocupado, inclusive a especulação do setor imobiliário que hoje nos cerca, não somente o Teatro Oficina, mas todo o mundo, agora mais quente e mais árido.


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