Perfis de artistas
quarta-feira, 15 setembro 2010 20:20

Deus ajuda os bão (1991)

Baseada no texto de Arnaldo Jabor, Deus ajuda os bão dá continuação às aventuras de Zé da Silva, o protagonista de A história do homem que lutou sem conhecer seu grande inimigo, que simboliza o povo brasileiro. Neste conto político, Zé da Silva, desempregado e vivendo na favela, encontra-se impedido de construir uma porta para proteger o seu barraco. Este problema dá início a uma jornada, na qual ele vai de porta em porta, escalando os degraus hierárquicos da sociedade brasileira — os especuladores, os intelectuais, o governo, o proprietários de terra — acabando por chegar nos E.U.A., em busca de uma solução para o seu problema. A viagem de Zé da Silva ilustra os mecanismos de poder em um país dependente como o Brasil, onde a questão da reforma agrária tem um papel crucial. Ele retorna à favela com a consciência de que, junto a todas as pessoas exploradas, ele precisa lutar pelos seus direitos. Deus ajuda os bão é uma obra concebida como uma farsa e é recheada de ironia, acentuando o drama econômico e político em que a maioria da população brasileira vive.

quarta-feira, 15 setembro 2010 19:15

A saga de Canudos (2000)

Por meio de máscaras e marionetes, música e dança, A saga de Canudos conta a estória da construção e da destruição da cidade de Canudos em uma das guerras civis mais mortíferas que o Brasil já viu. A performance recupera os aspectos políticos do movimento liderado por Antônio Conselheiro no século XIX. Assolados pela fome e pela opressão, milhares de sertanejos reuniram-se em torno dessa figura legendária. A terra, os rebanhos, as ferramentas, tudo era propriedade coletiva, as tarefas eram distribuídas de acordo com a capacidade de cada um e as decisões eram tomadas coletivamente, em encontros diários. O seu lema, porém — “A terra não tem dono. A terra pertence a todos” — foi considerado um desafio direto aos proprietários de terra, ao governo e à igreja. A historiografia oficial pintou Antônio Conselheiro como um fanático, mas esta peça o apresenta como um homem consciente do seu papel histórico, um homem que lutou contra a escravidão e contra o monopólio da terra, que desafiou a igreja e o governo e que liderou os camponeses a derrotar o Exército Nacional diversas vezes.

terça-feira, 13 julho 2010 14:22

Os Sertões: A Terra (2002)

De 2000 a 2007, o Teat(r)o Oficina Uzyna Uzona trabalhou na encenação de ‘Os Sertões’, o livro épico de Euclides da Cunha que descreve a Guerra de Canudos do século XIX no sertão brasileiro, liderado por Antônio Conselheiro. O resultado final foi uma pentalogia, formada pelas peças ‘A Terra’ (2002), ‘O Homem I’ (2003), ‘O Homem II’ (2003), ‘A Luta I’ (2005) e ‘A Luta II’ (2006), totalizando 27 horas de teatro. ‘Os Sertões’ relata os episódios da Guerra à luz da história passada e presente do Brasil e em relação à batalha do grupo contra o magnata da mídia Sílvio Santos, que queria derrubar o teatro histórico.

Em ‘A Terra’, o primeiro impacto é a geografia do sertão. Euclides da Cunha descreve cada parte do sertão na primeira parte deste livro, revelando ao leitor uma radiografia da região. Na peça, uma ópera carnavalesca, um épico musical brasileiro, os atores são a terra, a vegetação, o vento, os animais, os rios, a seca. Isto revela os segredos mais íntimos da natureza, que também vibram nas artérias humanas e trans-humanas. Quando esta obra retorna como overture musical de toda a pentalogia, enriquecida pela experiência que as obras subsequentes trouxeram aos criadores e à audiência, ela ganha uma visão atualizada da interferência humana no seu meio ambiente. O poder destrutivo, proporcional ao poder financeiro, coloca em pauta a discussão acerca do modo pelo qual o espaço é ocupado, inclusive a especulação do setor imobiliário que hoje nos cerca, não somente o Teatro Oficina, mas todo o mundo, agora mais quente e mais árido.


Materiais Adicionais

iconOs Sertões: A Terra, program with script (POR) (3.57 MB)