Perfis de artistas
quarta-feira, 15 setembro 2010 19:34

A exceção e a regra (1987, 1998)

Seguindo uma das mais importantes premissas de Brecht, que o teatro deveria cumprir com a sua missão de criar uma consciência crítica e ao mesmo tempo entreter, Ói Nóis adapta A exceção e a regra para as ruas. A estória do mercador e do carregador que se perdem no deserto é complementada por um coro de sete artistas performáticos, que cantam os eventos usando os ritmos afro-brasileiros e um elenco de onze artistas performáticos, que personifica a geografia, os animais e os sentimentos da estória.


quarta-feira, 15 setembro 2010 19:29

As domésticas (1985)

Esta encenação da obra As criadas, de Jean Genet, enfoca os relacionamentos de exploração e subserviência que geram as diferenças de classe entre duas criadas e a sua rica ama. A produção enfatiza o tema de um universo feminino subjugado a uma sociedade essencialmente machista ao ter os personagens femininos representados por homens. O cenário — cadeiras para a audiência, uma cama de casal, um armário e uma penteadeira com um espelho — é decorado com flores, cortinas de cetim, um altar para um santo que representa a ama e uma grande pintura de um falo. A encenação ocorre como uma cerimônia místico-erótica e toda a configuração da mobília é fálica. Nos jogos de representar papéis feitos pelas criadas, tornam-se óbvias as ambiguidades no seu relacionamento com a sua ama. Elas estão ligadas à sua imagem pela afeição, pelo erotismo e pelo ódio, ao tempo em que nutrem um profundo sentimento de desprezo uma pela outra, uma vez que elas enxergam na outra o que elas verdadeiramente são. O seu maior desejo não é eliminar a classe à qual a sua ama pertence, mas ocupar o seu lugar na sociedade.

quarta-feira, 15 setembro 2010 19:24

Dança da conquista (1990)

Dança da conquista traz ao palco o maior genocídio da história da humanidade: a Conquista das Américas pela Europa Colonial, um genocídio do qual os países colonizados são herdeiros, testemunhas e juízes. A encenação segue o ritmo e a forma de um ritual performático, uma dança na qual os derrotados invocam imagens da sua própria versão da história. A peça é uma colagem de textos da Bíblia, da poesia e de documentos históricos, invocando a sua força expressiva nos sucessivos choques simbólicos de universos mitológicos que constituíram a América Latina. O recurso do mundo mítico explora a comunicação através de uma veia simbólica, questionando o domínio da herança cultural europeia sobre as raízes indígenas e africanas.

quarta-feira, 15 setembro 2010 19:15

A saga de Canudos (2000)

Por meio de máscaras e marionetes, música e dança, A saga de Canudos conta a estória da construção e da destruição da cidade de Canudos em uma das guerras civis mais mortíferas que o Brasil já viu. A performance recupera os aspectos políticos do movimento liderado por Antônio Conselheiro no século XIX. Assolados pela fome e pela opressão, milhares de sertanejos reuniram-se em torno dessa figura legendária. A terra, os rebanhos, as ferramentas, tudo era propriedade coletiva, as tarefas eram distribuídas de acordo com a capacidade de cada um e as decisões eram tomadas coletivamente, em encontros diários. O seu lema, porém — “A terra não tem dono. A terra pertence a todos” — foi considerado um desafio direto aos proprietários de terra, ao governo e à igreja. A historiografia oficial pintou Antônio Conselheiro como um fanático, mas esta peça o apresenta como um homem consciente do seu papel histórico, um homem que lutou contra a escravidão e contra o monopólio da terra, que desafiou a igreja e o governo e que liderou os camponeses a derrotar o Exército Nacional diversas vezes.

quarta-feira, 15 setembro 2010 18:56

Antígona — Ritos de paixão e morte (1990)

O grupo Ói Nóis fundou na Tragédia Grega de Sófocles um espaço para discutir a desobediência civil do indivíduo contra a opressão do Estado. A peça é adaptada para uma performance ambiental, começando com a batalha entre Thebes e Argos no pátio da Terreira, e progredindo através dos cinco diferentes ambientes que a audiência atravessa, incluindo um deserto coberto com toneladas de areia. A adaptação não segue a estrutura clássica, mas é dividida entre uma sequência não-realística de 30 cenas, incluindo um diálogo entre uma mãe e o seu filho que desertou da guerra, uma cena adicional que relata a estória a partir do ponto de vista das pessoas e não o da nobreza, privilegiado pela tragédia clássica. A performance dura três horas e comporta cinquenta espectadores, que são convidados tanto a assistir quanto a participar das cenas, como o “Bacanal”, que representa o corte e o ritual de enterro de um falo gigante que Creonte usava por uma Maenad. Fragmentos de textos de Camus, Artaud, Brecht, Nietzsche, Heiner Müller, Julian Beck e de vários outros autores são entrelaçadas na narrativa, com o propósito de abrir a estória grega para outras situações políticas.

O amargo santo da purificação conta a estória do revolucionário marxista brasileiro Carlos Marighella, uma figura central na luta contra ambas as ditaduras enfrentadas pelo país no século XX – o Estado Novo de Getúlio Vargas nos anos 30 e 40 e a ditadura militar, instaurada em 1964. Esta visão alegórica e barroca da sua vida, paixão e morte revive um herói popular que os setores dominantes tentaram apagar da história nacional por décadas. Começando a partir das suas origens na Bahia, esta produção de rua apresenta a sua juventude, a sua poesia, a resistência ao Estado Novo, a sua prisão, a nova Constituição, a proscrição do Partido Comunista, o conflito armado contra a ditadura militar e a emboscada que terminou com a sua morte em 1969. O texto é escrito coletivamente, com base nos poemas de Marighella, transformados em canções. Através de máscaras, elementos visuais da cultura afro-brasileira, e de uma estética baseada nos filmes de Glauber Rocha, Ói Nóis traz para as ruas da cidade uma abordagem épica das aspirações de liberdade e justiça do povo brasileiro.

quarta-feira, 15 setembro 2010 18:32

Álbum de família (1996)

Álbum de família apresenta o “teatro desagradável” de Nelson Rodrigues, uma explosão de paixões humanas e de complexos inconscientes, pessoais e coletivos, expostos em forma de teatro. O núcleo desse teatro são os opostos complementares: amor e ódio, realidade e ilusão, morte e vida, hipocrisia e autenticidade, o profano e o sagrado, loucura e sanidade, o coletivo e o individual. É a aventura da humanidade como uma espécie, como uma civilização face à degeneração. Em Álbum de família, os complexos são elaborados no interior da composição dos personagens e da estrutura das ações. Os atos não confessos, mórbidos, obscenos e desumanos escandalizam, através da destruição pública de sonhos corporais de uma família patriarcal em meio à degradação física, psíquica e moral.

terça-feira, 24 agosto 2010 11:10

Aquilo de que somos feitos (2000)

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Aquilo de que somos feitos was created over a period of two years of research and rehearsals, in 1999 and 2000, when the celebrations for the 500 years of Brazil's "discovery" where very present. One of the starting points was, therefore, to "discover" and to deal with issues such as citizenship, history, memory. How can art think the world, and how can these ways of knowing serve the world? In this performance the audience shares the same space with the dancers, in proximity and exposed to a dilated time, where movement happens extremely slowly, stimulating a different way of seeing that is almost "epidermic." The object of investigation is the body, the flesh, both aesthetically—what unexpected shapes can it produce, what different ways can it occupy space—and philosophically, how much is a body worth, it's labor, it's meanings? In this work the audience is co-author, assigning whatever meaning it wishes to the shapes the body makes and to the political and advertisement slogans the dancers say.

quinta-feira, 05 agosto 2010 15:53

Sessão de Anistia a Zé Celso (2010)

Em 1974, José Celso Martinez Corrêa foi preso pela ditadura militar e levado para o DOPS – o Departamento de Ordem Política e Social –, onde ele foi brutalmente torturado e posto na cadeia. Trinta anos depois, o diretor teatral deu entrada em um pedido de perdão oficial e de compensação perante a Comissão de Anistia. Esta comissão tinha sido criada pela Lei no 10.559 de 2002, que complementou a infame Lei no 6.683 de 1979, que concedeu anistia geral para todos que haviam cometido crimes políticos sob o regime ditatorial, tanto como parte do exército quanto da resistência.

Em 2010, a Comissão de Anistia realizou a sua 35a sessão pública no Teatro Oficina, para realizar a leitura e a votação do pedido de Zé Celso. À teatricalidade oficial da lei, combinou-se O Banquete, uma peça do grupo, e a audiência foi recebida com uma canção servo-croata, seguida da lavação dos seus pés por um dos membros do elenco, caracterizado. O relator para o caso foi o advogado e ator Prudente José Silveira Mello, que fez a leitura do relatório vestindo um terno e de pés descalços, no cenário da peça.


Materiais Relacionados:

"The end of all tortures in Brazil," open letter by Zé Celso (POR)
"Political amnesty for Zé Celso," blog post announcing the event (POR)
"Amnesty for Zé Celso," article in the Estado de São Paulo 04/07/2010 (POR)
"How the Amnesty Session for Zé Celso went," blog post (POR)


Zé Celso's speech in the Amnesty Session 1/4, youtube video (POR)
Zé Celso's speech in the Amnesty Session 2/4, youtube video (POR)
Zé Celso's speech in the Amnesty Session 3/4, youtube video (POR)
Zé Celso's speech in the Amnesty Session 4/4, youtube video (POR)
Amnesty Commission Council votes, youtube video (POR)

terça-feira, 03 agosto 2010 12:43

O Rei da Vela (1967)

A obra O Rei da Vela foi escrita por Oswald de Andrade em 1933, mas a sua estreia ocorreu somente em 1967, nesta produção do Teatro Oficina. Encenada durante a revolução cultural do final dos anos 60 e no limiar do AI-5 de1968 – o período mais violento da ditadura brasileira –, ela tornou-se um símbolo para o movimento da contracultura. A casa de teatro do Oficina tinha sido destruído por um incêndio em 1966 e, buscando uma peça que pudesse simbolizar uma nova fase, a companhia decidiu que essa obra de vanguarda do dramaturgo brasileiro lhes oferecia os elementos necessários para refletir a crise do seu momento cultural e histórico. Uma fábula sobre um fabricante de velas e credor, sob a pressão de empréstimos para o imperialismo norte-americano, a obra retrata a condição de subdesenvolvimento do país, alvo de uma mentalidade autoritária, construída com base em superficialidades. Com elementos visuais fortes e agressivos de Hélio Eichbauer e uma canção de Caetano Veloso, esta produção tornou-se uma referência para diversos artistas que formaram o Movimento Tropicália, influenciando a música, o cinema, as artes plásticas e a literatura.


Materiais Adicionais

icon O Rei da Vela - review Folha clipping (251.08 kB)

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