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Body Matters/Corpografías

Claudia Briones e Marcial Godoy-Anativia | UBA e NYU

No dia 5 de março de 2006, as edições dominicais dos dois jornais mais importantes do Chile, o El Mercurio e o La Tercera, chegaram às bancas de jornal com seus suplementos culturais e volantes de propaganda como de costume. No entanto, nesse domingo, em particular, o encarte publicitário da cadeia de lojas Ripley mostrava uma linha de moda para a estação primavera numa série de fotografias que apresentava modelos em jeans com suas faces cobertas, suspensas pelos braços e pés através de uma variedade de aparelhos mecânicos – direta e inequivocamente referindo-se aos métodos específicos de tortura empregados pelo regime Pinochet durante seus 17 anos no poder,pelo expresso propósito de vender jeans. Quase que imediatamente, as organizações locais dos direitos humanos denunciaram o encarte publicitário através de uma campanha de e-mails e websites locais, ameaçando pedir um boicote por parte dos consumidores a não ser que a cadeia de lojas retirasse prontamente as fotografias de circulação e emitisse uma retratação pública. A Ripley, em silêncio, cedeu ao pedido e no prazo de um ou dois dias, o assunto simplesmente desapareceu da atenção pública como se não tivesse acontecido.

Neste volume, um dos ensaios examina este incidente não apenas para chamar a atenção para a banalização e a “esteticização” do horror que o volante publicitário da Ripley desempenha, mas também para questionar a conjuntura sociopolítica na qual a erupção de corpos torturados através da mídia falha em gerar respostas capazes de contestação comparativamente eficaz. O que esta análise sugere é que a visão crítica e a exibição dos corpos não devem somente ter como preocupação a presença e a ausência de corpos particulares em espaços particulares, mas também com os mecanismos pelos quais estes corpos estão imbuídos ou destituídos de sua capacidade de condensar e transmitir significados socio-históricos que os fazem inteligíveis e equiparáveis às tensas formações sociais que constituem. Atenção para estes mecanismos é crucial, não somente para decifrar a proliferação, sempre em expansão, de corpos visíveis pela máquina representativa da tecno-cultura guiada pelo mercado, mas também para reconhecer as estratégias através das quais os atores sociais, indivíduos e coletivos, restituem – para estes corpos – as densas histórias de dominação, exclusão e violência que são freqüentemente apagadas ou trivializadas, no entanto, tão necessárias para imaginar e construir espaços de esperança.

Em algumas vias bem concretas, os acadêmicos, críticos, artistas, ativistas e cidadãos apresentados neste número da e-misférica—Body Matters/Corpografias—são todos participantes de um projeto que insiste em tornar os corpos não só visíveis, mas densamente visíveis. Vivemos numa época em que o mercado, as noções “medicalizadas” de bem-estar, e o desejo de segurança produzem imagens contraditórias de corpos a serem desejados e consumidos. Estas visões oscilam entre as utopias corporais super-determinadas de beleza e bom estado físico e sua banalização através da incessante comercialização; entre os corpos que nascem com seus direitos e outros com necessidade de auto-desenvolvimento; entre as massas desumanizadas de “incontáveis” mortos de guerras e biografias detalhadas de “verdadeiras” vítimas; entre aqueles que merecem mobilidade e aqueles circunscritos ao confinamento; entre aqueles corpos presos no medo e aqueles que merecem ser culpados; entres corpos agarrados pela dor e outros que vivem na êxtase; entre os corpos presumidamente inocentes e aqueles que são sempre “já” culpados.

Com esta tela de fundo, as colaborações para este volume possuem uma dupla tarefa: de um lado, apontam uma nova luz sobre os corpos hiper-visíveis, por outro lado, nos fazem ver a importância e os efeitos daqueles que são considerados prescindíveis. Entendendo que a hiper-visibilidade não é somente o resultado do marketing, tablóides ou o que seja considerado artístico, vários dos trabalhos incluídos aqui – nos quais as comunidades e movimentos confrontam e mobilizam seu próprio corpo político – recorrem aos seus próprios existencialismos e canonizações, assumindo a carga de seus discursos de redenção, e, ao mesmo tempo, o custo e os significados abertos da inovação. No entanto, é precisamente na junção de tais complexidades e ambigüidades que o trabalho dos acadêmicos, artistas e ativistas neste volume se cruzam. E, enquanto as tarefas não são de maneira alguma fáceis, a iniciativa crítica dos quais eles fazem parte é indubitavelmente necessária.



Claudia Briones (1957) é antropóloga, Professora da Faculdade de Filosofia e Letras da Universidade de Buenos Aires e Pesquisadora do CONICET. Trabalha como diretora do GEAPRONA (Grupo de Estudos em Aboriginalidade, Províncias e Nação) e se especializa em estudos étnicos e interculturalidade, com foco nas produções político-culturais e direitos dos povos indígenas. Ultimamente seu interesse em práticas de ampliação e disputa de espaços públicos e noções de cidadania a levou a analisar também processos de politização da cultura e da culturização da política em movimentos urbanos de emegência recente.

Marcial Godoy-Anativia é antropólogo sociocultural e atualmente é o Diretor Associado do Instituto Hemisférico de Performance e Política na Universidade de Nova York. Entre os anos de 2000 e 2007, trabalhou no Programa para a América Latina e Caribe e no Programa de Colaboração Internacional do Social Science Research Council. Suas publicações recentes são “Between Hammer and Anvil: Middle East Studies in the Aftermath of 9/11” (com Seteney Shami), “We are Living in a Time of Pillage: A Conversation with Carlos Monsiváis”, e Ciudades Translocales: Espacios, flujo, representación – Perspectivas desde las Américas (2005), co-editado com Rossana Reguillo.

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